Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

17.1.17

ALI

Esta é uma one shot baseada na terceira temporada de Fúria, "Sentença", que tem por foco a personagem Sidney Basner, de nome verdadeiro "Ali Albandak". Para conferir os capítulos da terceira temporada, clique neste link.  



Em algum lugar do ABC, São Paulo, Brasil, 2034
DIA 1
No quinto assento da segunda fileira, praticamente no centro da arena improvisada, Beth Vaccari observava fixamente o final da luta que acontecia poucos metros à frente; uma mulher larga e forte, com parte da cabeça raspada, empurra, brutal e resoluta, uma adaga no peito de outra mulher consideravelmente inferior. Era uma luta desigual, selvagem e sangrenta, um daqueles tipos de embate sem nenhum atrativo, onde o resultado é previsível desde o primeiro instante. Seu olhar pousa sobre a vencedora; a enorme e funda cicatriz, exposta em sua cabeça raspada, chegava a ser mais interessante do que a luta em si.
Sua atenção escolhe displicentemente James Hansson, ao seu lado, que assim como ela, observa o embate por detrás dos óculos escuros, a expressão impassível. Reflete, durante segundos, na quantidade de “modalidades” existentes no ringue ilegal, onde brigas até a morte envolvendo mulheres apenas faziam parte do tosco espetáculo.
Todas eram prisioneiras, garotas majoritariamente jovens que foram vendidas ou sequestradas ou qualquer outro tipo de destino igualmente deplorável que as levaram até aqui. Sobreviveriam, nessas condições, a no máximo 3 anos. O dobro seria um milagre quase inatingível.
Quase.
Loma, a atual vencedora e favorita da casa, estava prestes a alcançar a marca.

James, obviamente, não estava gostando nada disso.
Não fazia seu tipo esse ambiente, assim como uma série de outros ambientes que faziam parte da realidade dela, da máfia e consequentemente, dele.
Sentiu profunda compaixão – uma espécie de compaixão maternal – ao pensar nisso, enquanto ainda contemplava seu rosto.
James foi uma espécie de acidente do destino. Ele com certeza seria muito mais feliz sendo professor, ou médico.
O ruído irritante da imensa gaiola enferrujada, onde cerca de cinco ou mais meninas estavam amontoadas e acorrentadas, arrastada sobre o chão de barro, puxava sua atenção de volta ao ringue.
Examinou as meninas e estalou a língua em desgosto.
Mais uma luta desigual. Mais uma vitória de Loma.

“As apostas estão começando, Beth.” – James sussurra, mas ela não esboça a mínima reação.

Enquanto Loma comemora a vitória, fazendo vibrar a plateia na pobre arquibancada, o corpo da moça que perdeu é arrastado pela areia do ringue para fora, deixando um rastro de sangue fresco sobre o local. Do outro lado, a gaiola é aberta e uma das meninas é puxada para fora através de correntes ligadas às algemas em seus pulsos.  
Negra, magra e esguia.
Nitidamente desnutrida e fraca, mas ainda assim, resistente.
Ela finca os pés no chão enquanto é puxada agressivamente pelas correntes, como se desejasse tornar difícil a vida do homem – notavelmente maior e mais forte – que a guia até o ringue. A forma resoluta com que se porta, provocando puxões mais fortes que machucam a carne de seus pulsos, não é um ato de medo. Ela não aparenta ter medo do ringue. Seus olhos transmitem raiva. Raiva fria e letal que está prestes a eclodir na arena.
Beth volta-se para James, repentinamente animada.

“500 pela garota negra.” – Murmura.

Ele lança um olhar desdenhoso para a dita cuja, e arqueia uma sobrancelha.

“Tem certeza?”

“Absoluta.” – Responde, sorrindo.

Suas algemas são abertas e ela é empurrada para o círculo.
Beth vibra internamente por antecipação, enquanto a maioria esmagadora da arquibancada aposta em Loma.
Ela contém um sorriso quando a luta começa.

Loma gira a faca recebida por um de seus apostadores entre os dedos, sorrindo predatoriamente para a adversária. Ela não reage, e seu olhar está fixo nos olhos dela, como se pudesse captar todas as suas intenções através deles. As duas giram sobre o ringue, numa espécie de dança intimidatória que precede o embate. Depois de alguns segundos, os gritos ansiosos da arquibancada aceleram o processo.
Loma é a primeira a investir, obviamente. Sua faca risca o ar, ao invés do pescoço de sua oponente, que se esquiva. As duas estão em posições invertidas na “lona”, mas a garota não faz menção a contra-ataque.
Mais um sorriso desdenhoso de Loma.
As duas giram novamente quando Loma tenta golpeá-la novamente, duas vezes, uma no lado direito do tórax e outra na parte inferior de sua barriga. Ela se esquiva novamente, e Beth enxerga uma vantagem.
Loma é larga, alta e forte, mas sua oponente é menor, mais fina e mais rápida.
Entretanto, as duas tentativas de golpe foram boas, boas o suficiente para gerar frustração quando a garota miúda escapa.
De repente, Loma já não está tão no controle.

“Começo a suspeitar que sua escolha não tenha sido tão ruim assim.”
     – James comenta, e desta vez, ela já não suprime seu sorriso.

Ainda assim, a garota não contra-ataca.
Beth então começa a observar uma mudança de comportamento na arquibancada. Gritos esporádicos externalizam a insatisfação na oponente que não reage. Já são quase 5 minutos, e nenhuma gota de sangue foi derramada. A última luta durou menos que isso.
Uma Loma irritada avança com toda a fúria na direção de sua oponente.
Beth volta-se para James, novamente.

“Essa garota vai encerrar essa luta em poucos minutos.” – Declara. – “E quando terminar, quero que vá atrás dela e descubra quem ela é.”

Loma avança, mas um movimento intencional de sua adversária lança sua faca para fora do ringue.
Gritos de aprovação se seguem quando a garota gira para o outro lado. Ela sorri pela primeira vez, mas não é para a platéia. É para Loma.
A vantagem foi desfeita. A talvez única regra da luta é: uma vez que sua arma estiver fora do ringue, não se pode mais resgatá-la.
Loma rilha os dentes, tenta golpeá-la novamente, mas esquece sua guarda; a garota usa de sua pouca força num soco que atinge intencionalmente seu ouvido direito. Loma cambaleia e a platéia vibra, esquecendo-se de sua aposta. A garota avança, mas Loma parece não estar tão desorientada e a acerta na mandíbula. A moça cai.
A platéia vibra com mais força.



Num segundo, Loma está em cima da garota, mantendo-a no chão com o peso de seu corpo, e o primeiro de uma série de socos atinge violentamente o centro de seu rosto. A arquibancada ruge, e Loma a golpeia tantas vezes que os locais atingidos se confundem; supercílio rompido, nariz, boca e partes do rosto, tudo se misturando em tons de vermelho escuro quando o sangue se torna abundante em seu rosto.
Suas tentativas de defesa perdem a força a cada golpe, e Loma se permite sorrir novamente.
James olha para Beth com a sobrancelha arqueada.

Ela, entretanto, está com o olhar fixo demais na luta para notá-lo.
Observa, apreensiva, a força e a vida se esvair do corpo da menina até então resistente, e reflete, com pesar, que talvez estivesse errada sobre ela. Talvez. Até que a luta terminasse, Beth ainda se permitia o benefício da dúvida.
Então, ela enxerga, verdadeiramente, seu rosto quando a moça olha para a arquibancada.
Um rosto ensanguentado é visto por Beth, frontalmente, e ela consegue reconhecê-lo; alguma cidade do México. Alguns meses ou um ano atrás. Rachas numa avenida, no meio da noite.

Entretanto, no instante seguinte, há outros pontos da cena mais interessantes a se observar.

Uma das garotas acorrentadas chuta a faca pousada fora do ringue na direção da moça.
Loma não nota a trapaça, e uma das mãos finas da garota agarra a ponta da faca, manuseando e posicionando entre os dedos.
Loma ainda está concentrada demais tentando golpeá-la até a morte, quando, num movimento, a moça enterra a faca na lateral direita de seu pescoço.
A platéia silencia.
A moça se senta, segurando firmemente o cabo da faca ainda enterrada, encharcada de sangue, olhando fixamente para Loma como se ansiasse por vê-la morrer.
Raiva.
Raiva fria e letal que acaba de eclodir.
Loma tenta se mover, mas a perca de sangue mina sua força em segundos.
Num movimento, ela retira a faca, rasgando parte do seu pescoço ao meio.
Loma desaba, morta.
A luta termina, mas ninguém se atreve a comemorar.

“Vá atrás dela.” – Beth ordena para James. – “Agora.”

James se move com rapidez, ciente da razão da urgência.
Um dos “responsáveis” entra no ringue e arrasta a moça para fora. A garota que chutou a faca também é levada.
Ela descumpriu a regra. A única regra.
No lugar onde as normas são poucas, a desobediência é intolerável.

James desce as escadas com a máxima velocidade viável para o ambiente, desviando-se de pessoas que sobem e estacionam no meio do caminho.
Alguns metros a sua frente, as duas garotas são arrastadas para uma sala nos fundos da “arena”, onde provavelmente serão torturadas e mortas pelos organizadores. Ele observa, sob um baixo perfil, um homem espalhá-las em duas salas, empurrando-as e trancando cada uma.
James memoriza as portas.
Quando se certifica de que estão sozinhos, ele avança.

“Interessante sua lutadora.”
– Murmura, alto o suficiente para causar sobressalto no homem a sua frente.
“Você ainda não me disse o nome dela.”

“É proibida a entrada aqui.” – Sibila. – “Volte pra arquibancada.”

“Fico me perguntando em qual dessas portas fica seu chefe.”
– James continua;
“Com certeza está prestes a avisar a ele sobre esse pequeno imprevisto.”

“Senhor, pela última vez, se retire. Não quero tomar medidas mais agressivas.”

James ri.

“Ah, posso garantir que não.” – Solta. – “Com certeza uma frequentadora tão assídua e fiel como Beth Vaccari não gostaria disso.”

O menção de Beth – especialmente de seu sobrenome – causa o efeito desejado.
Sua postura muda da formalidade para o assombro, e ele abre a boca, mas nenhum som é emitido.
James avança um passo.

“Me leve até os organizadores.” – Ordena.

_____

As mãos dela ainda estavam escorregadias pelo sangue. Não saberia distinguir se era seu ou de Loma, e isso lhe provocou uma espécie de repentino e estranho fascínio.
No final das contas, tudo era sangue.
Independente do quão diferentes eram as pessoas, no final, tudo se resumia ao seu idêntico sangue vermelho escuro, e seu odor metálico.

A porta à sua frente se abriu com um rangido, revelando um homem que com certeza não era Izac. O “s” de seu nome havia sido mudado grosseiramente para um “z”, algo feio e desncessário como quem o carrega, e ela tomou aquilo como uma espécie de “punição” do destino.
Entretanto, o homem a sua frente não soava rude, nem sequer no modo de andar, e ela pode ver seu cabelo loiro e suas feições alemãs quando ele aproximou-se o suficiente dela.  Soava tão limpo e educado que sua presença tornava-se uma pintura bizarra. Não trabalhava para Santiago, obviamente. Os poucos meses em cativeiro ali foram suficientes para que conhecesse todos os “funcionários” da casa.

“Quem é você?”
 – Pergunta. O homem não responde. Talvez seja uma alucinação. Ela está tão fraca e apanhou tanto que uma alucinação seria perfeitamente plausível.

Ainda assim, incerta de sua sanidade, questiona novamente…

“O que faz aqui?”

“Faz muitas perguntas.”
 – Ele responde. Se pudesse mover-se, daria um passo para trás em sobressalto.

Porém, ela não pode.
Suas mãos foram acorrentadas por Izac naquela cadeira velha, e seu corpo doía demais para que ela tentasse se soltar. Não valia a pena, na verdade. Sabia de todos os riscos quando pegou aquela faca. A tortura, sessão de espancamento e morte já era uma realidade para ela.
Talvez já estivesse morta, até.
Talvez o homem a sua frente fosse um anjo, ou um demônio.

“Não teria porque fazê-las, se parecesse com alguém normal.” – Responde. Ele ri.Indaga novamente: – “Quem é você?”

“Essa informação não importa, por enquanto.”

Essa espécie de conversa misteriosa estava lhe deixando irritada.
Não poderia estar morta. Sentia dor. E ele era um homem normal. Talvez não exatamente normal, mas ainda assim, um homem.
A porta se abre novamente.
Desta vez, uma mulher entra em seu campo de visão, com uma aparência de ter alguma idade entre os 40 e 50 anos. Loira também. Mas não alemã, dessa vez.
Todas as luzes são acesas, e ela comenta para o desconhecido…

“Obrigada, James.” – Murmura, com um muito remoto sotaque italiano. – “Me espere lá fora.”

James.
Faz uma nota mental de guardar esse nome, caso precise.

Quando a porta é fechada atrás de si, e as duas são deixadas a sós, a mulher murmura:

“Como é o seu nome?”

E essa talvez era uma das piores perguntas que alguém poderia lhe fazer.
Apesar de não dizê-lo em voz alta, seu nome sempre vinha acompanhado do sombrio Albandak, o sobrenome árabe proveniente de seu falecido pai. A única coisa que lhe agradava nesses dois anos de escravidão, sendo jogada de um lado para o outro e comprada por pessoas que não fazia ideia de quem eram, era a falta de interesse em seu nome. Aqui, no ringue de Santiago, ela era apenas mais uma menina magrela caminhando para a morte certa. Ninguém estava interessado em seu nome, sua identidade, ou seu passado.

Ninguém, até essa italiana.

“Ali.” – Murmurou, ocultando pela milésima vez seu sobrenome.

“Eu sou Beth Vaccari.” – Ela revela voluntariamente.

E ela sabia de quem se tratava.
Durante esses fatídicos dois anos, volta e meia, ela ouvia falar nos Vaccari. Um clã antigo, daqueles tradicionais em que o sangue e o parentesco era uma espécie de ligação sagrada e inquebrável, que fez fortuna através de negócios ilícitos, formou um exército e dominou áreas. Todas as máfias seguiam o mesmo perfil. Sua família poderia facilmente se tornar uma, se os acontecimentos fossem diferentes.

“Por que os Vaccari querem saber meu nome?”

“Os Vaccari não querem saber seu nome.” – Declara, e então frisa a próxima palavra. – “Eu quero saber seu nome.”

“E não é a mesma coisa?” – Murmura.

Estava sendo rude, sabia disso. Ninguém deveria ser diminuído e resumido apenas pelo seu sobrenome, e o céu sabia que ela, mais do que os outros, entendia isso, mas não estava especialmente inclinada a ser empática hoje. Seu corpo ainda latejava de dor, e ela não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo.
Beth Vaccari, porém, não pareceu particularmente ofendida com sua colocação.

“Bom, isso depende do ponto de vista.” – Beth responde. – “De qualquer forma, deseja sair desse lugar, acredito.”

“Sim.” – Murmura, cética.

“Pois sairá hoje.” – Diz, casualmente, como se não significasse nada. – “Só preciso de alguns minutos, talvez uma hora.  Será levada de carro e poderá tomar um bom banho pra tirar todo esse sangue.”

“Por que?” – Ela questiona. Beth arqueia uma sobrancelha. – “Por que está fazendo isso?”

“Vejo potencial em você.” – Encolhe os ombros. Ela ri.

“Posso garantir que existem lutadoras muito melhores do que eu, acredite.”

“Ah, eu acredito.” – Murmura. – “Loma, por exemplo, era melhor do que você. Mas não é disso que estou falando, até porque você não venceu a luta por ser melhor lutadora que ela.”

Ali concorda com a cabeça.

“Sim.” – Afirma. – “Venci porque sou uma ladra.”

“Talvez.”
 – Diz.
“Mas o fato é que não teria aquela oportunidade se não se mantivesse viva até lá.”

“Isso não é um mérito.”

“É claro que é.” – Murmura. – “Resistiu por mais tempo do que todas as outras anteriores a você.”

Então Beth se levanta, como se aquela conversa estivesse terminada.
Ali observa, confusa, enquanto uma Vaccari caminha até a porta, disposta a tirá-la do ringue de Santiago sem aparentemente motivo algum.
Então sua mente se lembra da moça que lhe chutou a faca.
Com certeza ela será punida.

“Eu tenho uma exigência.”
– Ela declara. Beth volta-se para ela, em silêncio.

“Sim?”

“Se vai me tirar daqui, vai tirar a moça que me ajudou também.” – Exige. – “O nome dela é Yuval. Ela com certeza seria punida em meu lugar, e não vou permitir isso.”

Beth, então, assume uma expressão divertida.

“O que te faz pensar que está em posição de exigir alguma coisa?”

“Me viu no ringue.” – Murmura. – “Sabe que não ligo para as regras. Seria no mínimo desagradável ter uma rebelde com você, para sabe-se lá o que você quer de mim.”

Beth sorri. Realmente sorri, pela primeira vez em toda a conversa.

“Pelo visto, não liga para a morte também.”
– Diz. E a partir daquele instante, Ali pode enxergar, em seus olhos, que Yuval também seria salva.
“É uma sobrevivente, Ali. Geralmente não me decepciono com pessoas do seu tipo.”

DIA 4
Catanzaro, Itália, seis e quarenta da manhã

O corpo de Ali move-se preguiçosamente debaixo dos brancos lençóis.
A forte luz da manhã é aplacada pelas cortinas em tons de creme, e ela passa seu olhar pelo cômodo claro, grande, espaçoso, num dos andares de uma mansão em algum ponto da Itália.
Afasta as colchas e nota a pequena pilha de roupas dobradas, pousada sobre uma caixa preta, larga, no pé de sua cama.
Corrige-se internamente.
Não se trata de sua cama, nem se trata de sua casa.
Seus dedos finos apalpam o tecido macio de uma boa calça jeans e uma camiseta branca, e ela se surpreende ao perceber que as roupas são para ela. Provavelmente foram deixadas durante a noite, quando estava no mais profundo sono.
Quando se levanta, seus músculos fadigados doem, e ela remove o roupão com que dormiu e veste as novas roupas lentamente, como se sua energia se deslocasse para outra parte de seu corpo.
Para seu cérebro, mais especificamente. Era necessário muita energia para processar a repentina mudança de realidade.
A poucos passos da cama, a suíte era larga, com um espelho enorme e um lavabo suntuoso, banheira e ducha ao lado. O luxo do quarto como um todo faz retornar lembranças de uma vida nos Emirados Árabes que gostaria de jamais lembrar.
Amava seu pai. Amava cada partícula de memória dele. Ele a acolheu quando toda uma sociedade lhe exigia o contrário, tratou a bastarda como filha legítima, ao invés da mentira batida de uma prima ou sobrinha distante que foi acolhida e criada pela família.
Não gostava de lembrar dele espontaneamente porque isso a deixava sensível, e tudo o que a vida tinha exigido dela nos últimos anos passou longe de sensibilidade, mas quando estava sozinha, realmente sozinha, puxava memórias felizes de volta e chorava silenciosamente, com o olhar fixo na parede e o coração aquecido pela nostalgia.
Não ousava tirar os olhos da parede e observar o ambiente ao redor, porque isso a faria lembrar de suas circunstâncias atuais, e a doce saudade se transformaria em profunda tristeza.
Sua madrasta a vendeu como escrava semanas depois da morte de seu pai.
Não nutriu sentimentos de vingança, como se espera que aconteça; a única coisa que queria de seus parentes era a distância. Poderia passar a vida tranquilamente sem olhar jamais para nenhum deles.

Ela empurra para fora tais lembranças e foca em seu reflexo no espelho, o rosto repleto de cortes e hematomas.
Escova os dentes, lava o rosto e o cabelo curto, enxugando-se com uma bonita toalha branca.
Abre a porta e desce as escadas, descalça, fazendo todo o possível para que seus passos não sejam ouvidos. No andar abaixo, observa Yuval de costas, com o longo cabelo solto, sendo examinada por um médico.
Além dos dois, não há mais ninguém na sala.
Sua atenção se foca na conversa.

“Eu ficaria agradecido se não mentisse para mim.” – Ele murmura. – “Vi as marcas no seu braço. Estão muito bem disfarçadas pela tatuagem, mas ainda assim, são visíveis. Eu não sei como foi sua vida antes daqui, nem o que te levou ao vício, mas se me permite um conselho: pare. Eu conheço Beth Vaccari. Ela jamais vai tolerar consumo de drogas por aqui.”

A porta se abre em seguida, uma enorme e larga porta de acesso à sala principal, e a imagem de Beth Vaccari, acompanhada de James Hansson, entra em seu campo de visão.

Yuval usa heroína muito antes de entrar para o ringue de Santiago.
Foi exatamente o seu vício que a levou até o ringue, e a cena em que funcionários do local oferecem a droga em troca de favores sexuais era comum para a garota dois anos mais velha que Ali. Ali temia que isso continuasse acontecendo com os Vaccari, e não sabia muito bem o que pensar com a nova informação. A intolerância de Beth quanto ao uso de drogas poderia ser um bom sinal ou não.
Bom, porque poderia induzir Yuval a deixar o vício.
Ruim, porque não se sabe as represálias que poderão vir caso isso não aconteça.

“Bom dia, Parrish.”
– Beth murmura casualmente para o médico clínico. O super pagamento pela pequena e privada consulta havia sido feito desde a tarde passada. Ele murmura um “Vaccari” com a mesma casualidade, mas com uma nota de respeito a mais, enquanto acena com a cabeça. O olhar da chefe Vaccari volta-se para Yuval.
“Como ela está?”

“Bem.” – Diz Leonardo Parrish. – “Fraca e um tanto desnutrida, mas nada que não possa ser resolvido em pouco tempo.”

Ele omite a heroína.

“Ótimo. Yuval, queira me seguir até o escritório anexo. Preciso ter uma conversa.” – Beth diz. – “James, vá chamar Ali.”

“Não precisa.”
– Ali murmura, tranquilamente, como se acabasse de chegar.
“Já estou aqui.”

“Esteve aqui há muito tempo?” – Beth pergunta.

“Não.”
 – Mente.
“Cheguei agora.”

Beth arqueia uma sobrancelha, como quem deixa claro que não acreditou em algo, mas não acha conveniente objetar. Ali lança um rápido olhar sobre Yuval, e depois, sobre James.
Beth faz um sinal para que a sigam e caminha até uma porta, do outro lado da sala principal.
Em segundos, todos estão no cômodo fechado; James, de pé, Yuval e Ali sentadas nos sofás e Beth com o corpo encostado na densa mesa de mogno.
Ela cruza os braços e olha para as jovens sentadas à sua frente.

“Certo.” – Murmura, com um suspiro. – “Se tem algo relevante a me dizer sobre o passado de cada uma de vocês, o momento é agora.”


Yuval olha para Ali.
Ela não chutou a faca para Ali num momento de cumplicidade aleatória. As duas se conheciam desde os rachas no México, e pararam no mesmo lugar duas vezes por uma coincidência do destino. Esta coincidência cimentou um laço de amizade entre as duas, uma amizade estranha e improvável em meio a um lugar onde não havia espaço para isso.
Estavam acostumadas a se comunicar pelo olhar, já que dificilmente lhes era permitido falar algo. Não era vantajoso que escravas se unissem e se tornassem amigas, já que isso poderia culminar num levante.
Sozinhas, fracas e isoladas.
Era sempre assim que eram mantidas.
      Yuval era uma jovem israelense de classe média, que tinha uma vida confortável e segura em Jerusalém até o envolvimento com drogas. Isso, aliada a um relacionamento abusivo, a afastou de sua família e amigos, e depois, da própria Israel; quando fugiu, grávida, sofreu um aborto forçado e foi abandonada pelo namorado. As experiências traumáticas a afundaram numa depressão que acentuou o quadro de vício.
Em algum momento desse estágio de decadência, ela foi fisgada pelo tráfico humano.
Sua história era comum, se comparada a de Ali, e no final das contas, ela não era ninguém perto da filha de um multimilionário árabe, fruto de um relacionamento extra conjugal com uma mulher desconhecida, que talvez, pudesse ter uma vida tão interessante quanto a de seu pai.
Ali sabia o que estava implícito em seu rápido olhar.
Yuval enxergava sua posição como uma Albandak perdida algo que poderia lhe conceder regalias entre os Vaccari. Ela, por sua vez, não tinha certeza se Yuval estava de todo errada, mas se negou a revelar o passado.
Não porque tivesse medo de arriscar, mas porque não se considerava uma Albandak.
Ninguém, além do seu pai, jamais a considerou. Por que reivindicar um sobrenome que lhe fez tão mal?
Yuval, por sua vez, não revelaria o vício em heroína.

“Ninguém tem nada a me dizer?”
– Beth Vaccari indaga. As duas permanecem caladas. Havia muito a ser dito.

Beth espera por segundos.
Ali levanta o olhar, sentindo, em contrapartida, o olhar de Yuval cheio de expectativa frente a sua mudança de comportamento.

“Por que nos tirou do ringue?” – É a sua pergunta. Podia sentir a decepção de Yuval.

“Você já fez essa pergunta antes.”

“Mas ela nunca foi respondida.” – Ali rebate, olhando fixamente para Beth.

“Certo.” – Beth murmura. – “Devem saber quem eu sou, e o que eu represento. Provavelmente, se estavam no ringue de Santiago, é porque pessoas não queriam a existência de vocês. Se estiverem dispostas a começar uma vida honesta, tem minha permissão para levantar e ir embora. Estão livres. Porém, se enxergarem que a esta altura, isso não é mais possível pra vocês, os Vaccari estão de braço estendido para acolhê-las.”


Ninguém se levanta e isso não soa como uma surpresa para Beth.
James Hansson permanece ali, como um guarda, observando toda a cena em silêncio. Beth espera segundos antes de considerar como uma questão resolvida.

“Ficarão mais alguns dias aqui, depois serão deslocadas para outra cidade.”
– Diz.
“James vai fazer o treinamento de vocês.

“Eu tenho um pedido.” – Ali murmura, e Beth volta seu olhar para ela, com a sobrancelha arqueada.  – “Não vou mais incomodar depois disso. É o último pedido que tenho.”

“Pois então…”

“Não quero ser chamada de Ali.”
– Diz.
“Por ninguém. Esse nome morre a partir de agora.”

Beth fita a moça de 16 anos por longos segundos, em silêncio.
Aversão ao próprio nome não era algo especialmente incomum para Beth Vaccari. Havia conhecido uma quantidade considerável de pessoas que abandonaram seus verdadeiros nomes – e sobrenomes – para que assim, junto com as palavras, um passado doloroso voasse para longe. Isso poderia facilmente se aplicar a ela, se não encarasse as coisas do seu jeito. Seu passado foi doloroso também, e o nome Vaccari não era algo que inspirasse orgulho e honra, mas apagá-lo seria uma perda de tempo, já que para ela, seu presente seria tão escuro quanto seu passado.
Ela era uma Vaccari. Além disso, era a chefe.
Esse é um tipo de coisa do qual não há como se livrar.

 “E qual será seu nome, então?”
 – Beth pergunta, respeitando sua decisão, apesar de não partilhar das mesmas opiniões. Modificar seu nome não tornaria seu presente melhor. Ela passaria a trabalhar para os Vaccari a partir de hoje.
Entretanto, quando viu seus olhos, e a firmeza incutida neles, teve a sensação de que seu presente poderia não ser tão ruim quanto seu passado, apesar de tudo.

“Sidney.”
– Ali diz, reunindo toda dignidade que pode.  Então seu olhar pousa nas letras esculpidas no canto esquerdo da mesa de madeira, pequenas, quase imperceptíveis.
“Basner. Meu nome será Sidney Basner.”

***