Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

8.6.16

[RESENHA] 1984


Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. Superando todas as conjunturas históricas - e até mesmo a data futurista do título -, a obra magistral de George Orwell se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre os excessos delirantes, mas perfeitamente possíveis, de qualquer forma de poder incontestado, seja onde for.





Então, ultimamente venho dando uma atenção especial ao contexto histórico em que o livro é escrito/lançado; no caso de 1984, lançado em 1949 pelo supracitado George Orwell, há uma série de suposições quanto às “critícas políticas” que o autor possa ter dirigido a alguma forma de governo, suposições essas que apesar de válidas, não abrangem – em minha humilde opinião – a pauta do livro como um todo. Não, isso aqui não vai se transformar numa aula de história e eu não tenho a intenção de expor aqui se George Orwell queria alfinetar o regime soviético ou os regimes totalitários europeus, apenas dizer que uma obra pode ser, muitas vezes, o espelho do autor quanto ao clima do período e da sociedade em que vive.

Ainda sobre o contexto, uma vez eu disse num post sobre “distopias” que uma característica primordial desse tipo de história é a existência de uma sociedade mergulhada no caos e a tentativa desta mesma sociedade de arrumar a bagunça. Geralmente essas “tentativas” de aplacar a dor e o sofrimento geral se baseia em remover completamente a pouca liberdade individual existente, e com 1984 não é diferente. Há referências ao longo do livro que insinuam que a sociedade anterior à formação dos super-estados – Oceania, Eurásia e Lestásia – correspondia às sociedades europeias típicas da primeira e segunda Revolução Industrial, com o poderio do capitalismo crescente, a aglomeração de fábricas e a classe operária trabalhando em condições desumanas.

Neste cenário, com uma classe trabalhadora faminta e insatisfeita, surgem os movimentos sociais que vão gerar o Ingsoc, o núcleo ideológico da pátria do Grande Irmão. Há uma série de questões socias e filosóficas envolvidas quando os conceitos e objetivos do Ingsoc são expostos no livro, mas em suma, a ideia é parar o progresso científico/tecnológico e fazer com que o sistema de classes permaneça inalterado. Essas classes, na Oceania, constituem nos membros do Partido Interno (o alto escalão do super-estado), os membros do Partido Externo (o que poderia corresponder a uma classe média) e os Proles. Todas essas classes estão debaixo das ordens do Grande Irmão, e o que as separam já não é a quantidade de riqueza adquirida e sim a quantidade de conhecimento quanto à engrenagem do Estado.

Há formas diferentes de controle exercido sobre os membros de diferentes setores dessa sociedade; os proles são controlados através do trabalho contínuo e do entretenimento. Como não possuem nenhum conhecimento sobre como o Estado opera, tem suas mentes distraídas pelo ciclo vicioso de uma rotina repleta de trabalho e conteúdo midiático repleto de linguagem excessivamente sexual. Enquanto o comportamento compulsivo com relação ao sexo era estimulado entre os proles, o prazer sexual era totalmente vetado para os membros do Partido Interno e Externo. Como estes tinham acesso a informações e conhecimento sobre a atuação do Partido, o esforço para mantê-los na linha tornava-se muito maior. É daí que surgem as teletelas, a novilíngua, o duplipensar, os dois minutos de ódio e vários outros mecanismos para controlar as mentes e emoções dos membros do partido.

Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente à inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. [..] “Controle da realidade”, chamava-se. Ou, em novilíngua, “duplipensar”.

A própria novilíngua aparece como um mecanismo de indução à inércia e abandono do raciocínio e censo crítico. Consistia na retirada de conectivos, substantivos, adjetivos, verbos, preposições e enxugar o idioma para o menor número de palavras possível. Imagine um mundo em que todas as conjuções, preposições, advérbios e outros conectores fossem apagados do idioma; a fala se torna uma enxurrada de palavras desconectadas, uma atrás da outra, de forma robótica.

Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido, e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. [..] No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras – ou melhor, uma única.

Outra característica em comum observada em distopias clássicas é a preocupação vinda do governo em eliminar sentimentos como amor, compaixão e empatia entre as pessoas. Em Admirável Mundo Novo, o envolvimento entre duas pessoas era permitido, mas apenas sob uma perspectiva sexual. Esse mesmo aspecto é perceptível em 1984. As mentes dos governados é manipulada com a intenção de apagar qualquer tipo de sentimento que provoque fidelidade e laços profundos; em 1984, a fidelidade, o amor e a devoção absoluta devem ser direcionados apenas e exclusivamente ao Grande Irmão.

A guerra contínua e infindável contra os outros super-estados – Eurásia e Lestásia, impede o acúmulo de riquezas entre a população e alimenta o ódio histérico e patriotismo cego necessários para preservar a inércia dos membros do Partido. Winston, membro do Partido Externo, passa a refletir sobre as contradições ideológicas do governo e nutre uma série de questionamentos internos quanto a “onipotência” do Grande Irmão ao mesmo tempo que precisa se esforçar para esconder seus pensamentos dos olhos vigilantes das teletelas.

Mas agora não era possível ter amor puro, ou pura lascívia. Não havia mais emoção pura; estava tudo misturado com medo e ódio.

As questões que envolvem a perpetuação da guerra e o ceticismo de Winston quanto à nitidez das divergências ideológicas – ou a falta delas – entre a Oceania, Eurásia e Lestásia, remete ao contexto histórico em que a obra foi escrita. George Orwell escreveu 1984 sob um cenário de efervecência e confusão ideológica, onde se assumia posições e lados de forma apaixonada e excessivamente patriótica. O clima de ódio e frenesi do período encontra um espelho em 1984, e são justamente esses aspectos, tão palpáveis e próximos a nossa realidade que torna a obra sempre atual e verídica.