Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

24.1.14

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 15


LIZA
Quando Beth disse que iríamos para o Brasil, eu realmente pensei que voltaria para minha cidade natal. Mas foi só sair do aeroporto para perceber que estávamos em um lugar diferente do que eu estava acostumada. Aqui é quente e o sol está forte, nos escaldando. Eu aperto os olhos, me ajustando à luz e vejo um Dogde Ram preto esperando por nós. Beth começa a dirigir tranquilamente e eu finalmente pergunto:

"Posso saber em que parte do Brasil nós estamos?"
  - Beth olha para mim incrédula.

"Você é brasileira e não sabe?"

"Não é como se eu morasse no Brasil até hoje."
   - Digo.
"Eu só morei até a adolescência e nunca vim aqui."

"Ok, estamos numa cidade chamada Salvador. Satisfeita?"
    - Beth diz.

"Estamos na Bahia?"
   - Pergunto.

"Sim. E eu sei que você nunca veio aqui, a sua mãe nunca deixaria."
 
"Por que?"

"Porque ela odeia esse lugar."

"Por que?"
  - Repito a pergunta. Beth me olha de soslaio e diz:

"Você vai saber."



Nós permanecemos em silêncio pelo resto da viagem. Tento me concentrar em vasculhar minha mente sobre qualquer informação remota que eu tenha sobre essa cidade. Eu consigo me lembrar de algumas aulas de geografia ou história que tive, que citavam algumas coisas sobre Salvador. Então, em determinado momento, passamos perto de uma baía e as memórias chovem na minha cabeça. Elevador Lacerda, farol da Barra, Pelourinho. Pontos turísticos. A única coisa que sei sobre a cidade, até agora. Eu observo a extensão da baía e os barcos, até que Beth vira com o carro e sobe uma ladeira de pedra. Isso aqui é deserto e cheio de casas antigas e deterioradas, com pintura desbotando, portões enferrujados e alguns quebrados. Beth para o carro na calçada e sai. Eu a acompanho e nós entramos em uma casa amarela. Beth força um portãozinho velho que dá acesso a uma escada estreita. Nós descemos e eu vejo que o interior da casa está pintado de azul e rosa, tinta se soltando da parede. Há um varal improvisado, com calcinhas velhas e mal lavadas. O chão é de pedra, um vermelho barro feio. Beth não parece se importar com quão desagradável esse lugar é. Ela simplesmente entra sem bater e encontra um casal aos beijos no sofá velho da sala.
   Os dois imediatamente param e se desculpam, mas, Beth nem sequer olha para eles. Ela faz um sinal para que eu suba junto com ela e nós subimos mais uma escada estreita e mal feita. O odor afiado de comida estragada invade meu nariz. Eu faço uma careta involuntariamente e vejo cães sujos e desnutridos andando livremente pela cozinha. Há muita louça suja na pia e todo o lugar remete a sujeira e descaso.

"Julio!"
   - Uma voz feminina grita impaciente. Nós ouvimos vários outros berros, mas, Beth nem parece se importar e até acende um cigarro. Então, a dona da voz aparece na porta, resmungando:
"Em que raios esse homem foi se meter?!"

Então a moça olha para nós duas e para de falar de repente, petrificada.

"Bom dia, moça."
   - Beth diz, claramente se divertindo do espanto da menina. Ela é muito jovem, mais jovem que o timbre de sua voz revela; a garota mestiça que olha para nós duas com os olhos arregalados deve ter no máximo dezessete anos. Beth continua:
"Ou seria boa tarde? Eu acabei de chegar e não lido muito bem com fuso horário, entende?"

A menina pisca várias vezes, como se acabasse de sair de um transe.

"Oh, sim, é claro..."
   - Ela diz, se recompondo.
"Me desculpe... Bem, desejam alguma coisa?"

"Só desejo falar com o dono da casa."
   - Beth diz, o que me soa estranho, já que age como se ela própria fosse a dona da casa.

"O Julio? Bom, eu estava procurando ele agorinha mesmo..."
   - A menina começa a dizer, mas, Beth a interrompe.

"Encontre-o, e diga que é Beth Vaccari quem quer falar com ele. Tenho certeza de que compreenderá."

A garota parece ainda mais atônita ao ouvir a palavra "Vaccari". Ela abre a boca para falar algo, mas, desiste e a fecha novamente. Então nos encara por segundos e diz finalmente, antes de correr porta afora:

"Eu estou indo chamá-lo."

   Nós subimos uma outra escada. Aqui em cima é mais agradável do que na cozinha, com aquele fedor me causando náuseas. Há uma geladeira e um freezer, um sofá velho e rasgado, algumas cadeiras e uma mesa. Aqui é quente e desorganizado. Sinto o suor descer pelas minhas costas e me encosto perto da janela, na tentativa de conseguir um pouco de ar fresco. Porém, o vento está fraco, o dia abafado e a brisa que eu tanto queria não veio. Beth, em contrapartida, não parece se importar com o calor. Ela se senta numa das cadeiras e bate a brasa do cigarro na mesa tranquilamente.

"Srta.Vaccari"
  - Um homem em pé na porta do cômodo diz. O temor em sua voz é palpável. Ele sabe quem Beth é, e qual é o peso que este sobrenome traz. Ele não se atreve a dar um passo à frente e Beth levanta a cabeça e abre aquele sorriso do tipo 'negócios'.

"Oh, Julio, que bom que você chegou."
   - Ela diz.
"A garotinha ali me recebeu. Ela é uma moça adorável."

Abafo um sorriso ao tom de ironia da voz de Beth na última frase. Como a minha tia consegue ser tão cínica o tempo todo?

"Então, porque não se senta comigo?"
   - Beth diz com a mesma expressão de divertimento de antes e ele se senta, sem dar uma palavra siquer. Beth então cruza os dedos sobre a mesa e diz:
"Eu devo confessar que esperava melhores acomodações, mas, não se pode esperar muita coisa de uma cidadezinha como essa, não é mesmo?"

"Realmente, a casa está um pouco desarrumada..."
    - Ele começa, desajeitado. Beth ri e diz:

"Quanto eufemismo... mas, não vim aqui para falar sobre como se deve manter uma casa limpa, apesar de que vocês precisam de uma boa aula sobre isso, mas, vamos deixar para uma outra ocasião. Já deve imaginar o motivo da visita de uma Vaccari, não é?"

"Sim, é claro."

"E portanto, já deve ter em mãos informações detalhadas de nossas meninas, não é?"

   Julio se cala e desvia o olhar.
  Eu levanto uma das sobrancelhas ao ouvir a menção de Beth sobre "nossas meninas". Do que ela poderia estar falando?

"Infelizmente, não."
   - Julio finalmente diz, as veias do braço alteradas com o nervosismo. Beth finge estar desapontada e diz:

"Mas isso é muito ruim, Julio..."

"Mil perdões, eu não pude, a senhora chegou de surpresa..."

"Mas você precisa ter um relatório em mãos sempre, como vai controlar os ganhos?"
   
"Me desculpe."
   - Ele diz, abaixando a cabeça como uma criança manhosa tentando se safar do castigo. Beth olha para mim pela primeira vez desde que começou sua conversa e eu estou tão entretida no diálogo que até esqueci o enorme calor que sentia.

"É uma pena, Julio."
  - Beth diz, se levantando da mesa. Ele se levanta também, disposto a objetar, mas, Beth lhe lança um olhar tão severo que ele desiste. Ela simplesmente então vai embora, e eu a sigo. A garota que gritava o nome dele aos berros, então entra rápida como um foguete no local quando já estamos na porta.

"Oh, Julio..."
   - Então ela lhe dá um forte abraço, sua voz cheia de preocupação. Ele está de costas para nós e não percebe quando a menina mestiça me encara fixamente e eu a encaro de volta. Então, quando eu vejo toda a angustia e aflição refletida em seus olhos negros, percebo o que essa conversa significa. Julio não está sendo um bom empregado. Ele falhou, portanto, vai morrer.
    É só uma questão de tempo para que apareçam aqui e o levem. Ela irá chorar, tentará impedir que o levem, mas, nada vai adiantar. Ele estará morto e ela não terá para onde ir, se não acabar morta também. E eu não posso ajudar. E ela sabe disso.

"Ele vai morrer, né?"
   - Eu digo quando entramos no carro. Beth me encara em silêncio por alguns segundos, como se estivesse lendo minha expressão, tentando descobrir como eu me sinto em relação a isso.

"Quando você se torna a chefe, você precisa fazer esse tipo de coisa."
   - Ela diz, olhando para frente e não para mim.
"Sabe, Liza, não é como nas outras famílias. Nós não podemos perdoar."

"Quando você se tornou a chefe?"
    - Pergunto.

"Quando o seu pai morreu."
   - Beth responde.
"Foi tudo muito difícil no começo. Nós estávamos em guerra. Sabe, era você quem deveria ser a chefe."

"Eu nunca aceitaria isso."
 
"Eu sei. Por isso assumi o comando. Alguém precisava arrumar as coisas."

"Por que diz que estávamos em guerra?"
   - Pergunto. Eu poderia deixar a frase no ar, mas, não consigo.

"Lembra quando eu disse que não eramos unidos? Então, essa coisa começou na época em que o seu pai era o chefe. Os Vaccaris se desuniram, nomearam outros chefes, nós começamos a brigar entre si. Isso deve ter ajudado os Hansson a se tornarem tão poderosos como são hoje. Nós dominávamos tudo isso. Todos nos temiam, mas, os Hansson estavam lá. Esperando o momento, como se soubessem que isso fosse acontecer."

   Há ressentimento na voz de Beth, como eu nunca tinha visto antes. Então outra pergunta se acende na minha cabeça.

"O que são as 'nossas meninas'?"

Ela me encara novamente.

"Você quer mesmo saber?"
   - Beth pergunta e eu faço que sim com a cabeça. Ela continua me encarando, depois dá de ombros e diz:
"Aquilo que você viu no diário sobre o seu pai, é só o começo. Ainda há muita podridão escondida."

"Quando eu disse que queria saber tudo o que você sabe, eu não estava blefando."
   - Solto.

"Ok então. As meninas de que eu falava eram prostitutas que trabalham para nós."
   - Beth diz. Eu não esboço reação e ela continua.
"E já que quer mesmo saber, a nossa família trabalha com tráfico de mulheres."