Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

9.8.13

[CONTO] Fúria - Último Capítulo

A vida é como um jogo.
Você se envolve, dá a cara para bater.
Se põe em situações arriscadas.
Mas quando fica perigoso demais, é hora de pular fora. 

Essas palavras pairam na minha mente enquanto arrumo minhas malas. Eu nunca fiz o tipo que foge de uma boa briga, mas em certo ponto, você deve abrir mão do orgulho e usar a lógica. É estúpido se envolver em um conflito sabendo que o seu adversário é mais forte que você. Fico pensando se eu ficaria aqui se Rachael não existisse. Ou se ela tivesse morrido naquele sequestro. Será que eu pensaria diferente? Creio que sim, afinal, a proposta de um confronto direto é um tanto tentadora. Mas então eu penso: Eu matei a assassina dos meus pais. Era isso que eu queria. Fim.

   Eu vou seguir para o porto sozinha e Rachael só vai depois. Tenho alguns documentos e coisas para resolver antes da partida. Nós vamos de navio, fugir para uma terra do outro lado do oceano. Me sinto um pouco mal em saber que provavelmente nunca mais vou ver Will ou Lauren. Mas é preciso. Ficar aqui é eu estar esperando um próximo ataque.
    Fecho o porta malas do carro com a esperança de que as coisas serão melhores daqui para frente. Talvez eu possa finalmente voltar para o Brasil e superar a morte dos meus pais. Talvez eu possa viver lá como uma pessoa normal e esquecer todas as lembranças ruins que estou deixando para trás. O que eu quero é me lembrar apenas do que foi bom. Então, enquanto eu dirijo, eu me forço a afastar todos os pensamentos ruins que ameaçam tomar conta de mim.
   Will ficou de se despedir de mim no porto, mas quando eu chego, ele não está lá. Eu espero sua chegada por uns 10 ou 15 minutos, e quando ele não aparece, eu decido arrumar as coisas dentro do navio enquanto Rachael não vem. O navio é particular, pertence a companhia dos meus pais mortos. Pra falar a verdade, é a unica vez que eu uso alguma coisa da minha herança, apesar de ter todo direito de tomar posse. Nos últimos anos eu tenho tentado me afastar de tudo o que lembre os meus pais, mas como estou voltando para o meu país de origem, decido encarar as coisas como elas são. Eu caminho pela espaçosa cabine que será o meu quarto nos próximos dias de viagem. É bem decorada e tão confortável quanto um quarto de uma casa luxuosa. Eu decido colocar alguns objetos insignificantes num criado mudo e me distraio com a janelinha de vidro. Então, estranhamente, uma conhecida voz feminina diz atrás de mim:

"É um navio muito luxuoso,"
   - Me viro e para a minha surpresa, quem está lá, sentada numa bela poltrona é Lauren. Ela cruza as pernas e continua falando, sorrindo, de um jeito que nunca vi:
"Você tem sorte em ter herdado tudo isso e muito mais."

"O que faz aqui?"
   - Pergunto.

"Devo confessar que fiquei impressionada em saber que você tinha descobrido toda aquela coisa sobre a Morgana. O seu único erro foi ter decifrado apenas uma parte do enigma."

   Eu a encaro estupefata. Esta não é Lauren que eu conheço. A Lauren sorridente, doce e amiga de dias atrás. Essa pessoa que vejo na minha frente é outra pessoa. Tão diferente e tão familiar ao mesmo tempo. A Lauren que eu vejo é como uma reencarnação de Morgana Hansson.

"Mas é claro que você não deve estar entendendo nada, não é? Não se preocupe, eu vou lhe explicar."
    - Ela me diz. Calma e fria.
"Eu deveria estar chateada com você, e estou. Você atrapalhou a minha temporada de paz na Suíça para vir a essa cidade xexelenta exterminar a última fagulha dos Vaccari. Se não fosse pelas suas travessuras, eu jamais teria voltado para NY de novo."

  O peso de suas palavras é mortificante. Eu só consigo encará-la, incrédula do que seja a verdadeira Lauren Black. É horrível suportar a ideia de que a pessoa que eu considerava minha amiga, trabalha para a mafia que matou os meus pais.

"Você mentiu todo esse tempo e..."
   - Eu digo, mas ela me interrompe.

"Menti."
  - Ela diz como se fosse óbvio. Lauren me olha com uma cara de tédio, como se estivesse cansada de dar explicações.
"E isso não foi nada em comparação. Eu não tentei matar você, até por que se eu tentasse, você já estaria a sete palmos da terra. A unica pessoa que matei aqui foi aquele seu chefinho ridículo só para abrir caminho para Morgana chegar, então você deveria me agradecer."

"Como você pôde?"
    - Eu pergunto, enojada com tudo o que ela me diz. Ela rola os olhos e diz:

"Por favor, Liza. Não é como se você nunca tivesse matado alguém."

    E é aí que ela joga os meus podres na minha cara.

"Você pode até negar"
   - Ela continua.
"Mas eu e você, somos iguais."

  E essa frase me perturba completamente, por que ela está certa. Quantas pessoas mesmo eu matei friamente? Começo a me perguntar no que eu me tornei. Eu me tornei algo tão desumano quanto Lauren Black. A frase dela me desarma. Eu passei por cima de virtudes, virtudes que os meus próprios pais me ensinaram em memória deles. Eu nunca me perguntei, e agora isso é o que mais me assombra. Meus pais estariam orgulhosos de mim? A resposta é não. Eu não sou mais Liza Vaccari. Eu sou a vadia psicopata que promoveu uma carnificina em NY. É a primeira vez que penso que realmente mereço morrer. E é aí que eu lembro do dia do enterro de Monteiro. Lauren estava lá, me abraçando e sussurrando palavras doces. Lauren estava no enterro de sua própria vítima, agindo como se estivesse tão arrasada como qualquer outro. Então, as palavras fluem, duras e definitivas:

"Não, Lauren"
   - Eu digo sem a noção do que está prestes a acontecer.
"Você está enganada."

Então há um barulho, um empurrão, armas apontadas para mim e Rachael.
Eu vejo, sob a mira do cano de um revólver, minha jovem irmã desajeitada, com uma arma apontada para Lauren.

"Largue ela!"
  - Rachael ordena, o que faz Lauren rir.

"Não sabia que a Liza deixava bebês usarem armas."
 
"Cale a boca!"
   - Eu rosno, irritada com o escárnio de Lauren. Ela aperta o cano da arma contra minha cabeça em resposta. Eu olho para Rachael. Ela está segurando o choro. "Seja forte, meu bem" digo mentalmente, como se eu pudesse passar essa mensagem para ela. Rachael olha para mim e eu consigo ler todo o pavor que está sentindo. Seu corpo treme descontroladamente e suas mãos apontam o revólver, vacilante. Ela então crava seu olhar para Lauren, sem dizer uma palavra.

"Acabe logo com isso."
  - Lauren diz.
"Eu sei que você não tem coragem de atirar e se tem, não perca tempo."

   Eu olho para Rachael. Ela não pode atirar. Seria um desastre se ela atirasse. Sua mira iria falhar e nós duas estaríamos mortas. Lauren sabe disso. Por isso, ela pressiona. São longos instantes de puro silêncio. Longos e agoniantes. Minha irmã com uma arma em punho. Eu com uma arma na minha cabeça e uma psicopata na minha cabine.

"O que vai ser, garota?"
    - Lauren diz e eu ouço o barulho de sua arma destravando.
"Não vou esperar o dia inteiro."

Eu vejo o dedo de Rachael se mover até o gatilho e engulo seco. Eu olho para ela, rezando para que ela olhe para mim e entenda o meu recado. "Não, Rachael, não" é o que eu penso. Rachael não está olhando para mim. Ela só vê Lauren e o pavor de pensar que eu posso estar morta nos próximos instantes. A cena passa por meus olhos em câmera lenta. Uma lágrima escorre em seu rosto e ela aperta o gatilho.
Eu fecho os meus olhos.
Há o barulho, e uma dor lascinante que se espalha por meu corpo.
Essa dor é conhecida para mim, por que eu já tomei um tiro.
A unica diferença, é que dessa vez, eu sinto como se a vida fosse sugada para fora de mim.

CONTINUA...
SEGUNDA TEMPORADA DE FÚRIA, EM BREVE!