Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

3.7.13

[CONTO] Fúria - Capítulo 5

É meia noite.
A mesma hora em que os meus pais foram mortos.
Eu estou sentada na sala, olhando fixamente para a ficha de Jack Stevens.
É uma ficha mais completa do que a que eu recebi semanas antes, no dia que fui procurá-lo. Esta ficha tem o endereço e algumas notas sobre seu julgamento.
Endereço.
É tudo o que eu preciso, por enquanto.

Eu deveria estar com alguma roupa de dormir e não de calça jeans, botas e casaco. Há uma parte de mim que diz que essa é a roupa errada para isso, que eu deveria voltar, vestir algo confortável e dormir.
Porém, há uma outra parte, que diz que devo pegar meu carro e ir a esse endereço.
Eu prometi a mim mesma que voltaria. Então por que estou hesitando tanto?
Vou no quarto de Rachael checar se ela está dormindo.
Tudo ok.
A casa está terrivelmente silenciosa. É a hora. Eu devo fazer isso. Não importa o que aconteça, eu tenho que desvendar a morte dos meus pais. Jack não é o tipo de pessoa que merece a minha compaixão.
Sem pensar mais, saio e entro no carro. Dou mais uma olhada no suposto endereço de Jack. O endereço mais recente, eu diria. Eu sei que provavelmente não vou encontrá-lo lá, mas estou em busca de informações. Quanto mais, melhor. Eu tenho que rastrear seus passos agora.

   Eu estou no subúrbio de Manhattan. Dou uma boa olhada na rua antes de sair do carro. É uma rua comprida, feia, escura e repleta de casas pobres. Algumas estão tão desgastadas que pedaços de concreto se soltam facilmente. Quando saio do carro, trato de sacar o revólver. Fico feliz por minhas botas não terem salto. A rua está muito silenciosa, a ultima coisa que eu quero é chamar a atenção. Casa 501, recito a mim mesma silenciosamente. Subo na calçada da rua e começo examinar casa por casa. Não demora para que eu encontre o número 501 esculpido numa plaquinha de metal antiga que parece ser de cobre. É uma das casas mais deterioradas da rua. A pintura descascando e a porta empoeirada. Subo os três degraus que levam a porta e descubro mais uma coisa: ela está entreaberta. A fechadura está quebrada. Parece que alguém andou arrombando isso aqui. Aponto o revólver e ligo uma lanterna. Entro na casa e vejo tudo revirado e sujo. Rachael tem alergia a poeira e mofo. Eu também tinha na idade dela, mas a forma como vivo não permitiu que a alergia se desenvolvesse. Quando você enfrenta situações deploráveis em lugares extremos, o seu corpo aprende a ficar forte. Em todos os sentidos.
    Dou passos cautelosos como se estivesse em um campo minado. Três passos e sinto algo no meu pé. Meu primeiro impulso é puxar o pé para longe e eu o faço. Mudo a lanterna de direção. A luz ilumina a capsula de bala. Dou outros passos e vejo uma mancha de sangue no chão. Pela cor, é fresco. Alguém esteve aqui a poucas horas. Onde há fumaça, há fogo. Não demora muito para que eu encontre um cadáver estirado no chão. E o pior de tudo é que conheço esse rosto. Ele pertence ao meu chefe, o Monteiro. As luzes se acendem e então eu percebo que eu tenho companhia.

"Detetive Vaccari!"
  - Jack exclama com alegria. Ele está em uma escada, de frente para mim. Minha arma aponta para seu peito. Ele está com um roupão azul escuro e desarmado. Sua expressão é de diversão, apesar de que eu estou pronta para lhe dar um tiro fatal.
"Sabe, eu sempre soube que nos encontraríamos de novo. Creio que a senhorita também, depois de nossa conversinha na delegacia e tudo."

   Eu permaneço calada. Minha mira não hesita um segundo. Ele continua:

      "Vaccari. Eu conheci alguns Vaccaris. Na teoria, era para todos eles estarem mortos. Mas então, olha você aqui."

 "Eu sempre soube..."
    - Digo, mas ele me interrompe:

"Você me disse que nos veríamos de novo, logo deduzi que você viria me procurar. Olha, eu devo dizer, meus parabéns. Você é corajosa. E estúpida também. Eu já deveria saber. Vocês, Vaccaris, tem o dom de ultrapassar a linha entre a coragem e a idiotice."

   Mantenho a voz controlada, apesar de minha língua estar coçando para cuspir um monte de obscenidades para ele. Então, decido fazer o seu jogo. Estou agindo como se age numa conversa tranquila e casual.

"Você trabalha para alguém, não trabalha?"
    - Pergunto. Ele ri e me diz:

"Não estamos mais num interrogatório, querida."

   Há dois homens atrás de mim, com armas apontadas para mim. Há um terceiro, que está quase do lado de Jack. Examino a situação. Pense, Liza, pense. Vejo um cômodo. Eles estão apenas esperando eu agir. Se eu rolar e me jogar nele, talvez eu escape. Mas não com aquele capanga na minha frente. Minha arma muda de posição rapidamente e num segundo, eu coloco uma bala em sua cabeça.
   O tiroteio começa. Eu consegui rolar para o cômodo, mas fui atingida de raspão no braço. Nada que eu não possa aguentar. Sinto o sangue escorrer e ignoro a dor que vem dele. Eu posso ver Jack de relance. Atiro em sua perna. Eu ainda o quero vivo. Ele tem muita informação útil pra morrer assim. Ele põe a mão em sua coxa e se arrasta para cima das escadas. Os tiros param. Estamos esperando pra ver quem baixa a guarda primeiro. Ponho a cabeça rapidamente para o lado e observo. Que amadores! O capanga do lado direito não tem nenhuma proteção, a não ser o colete a prova de balas. Mas isso não é o suficiente. Coloco a cabeça para o lado novamente e disparo duas vezes. A primeira bala pega a parte superior de sua perna, bem perto da virilha e a segunda, sua cabeça.
   Falta um. Esse é um pouquinho mais esperto, entretanto. Foi ele que me atingiu de raspão, suponho. Ele dispara e se esconde em outro cômodo. Silêncio novamente. Eu saio da toca. Outro tiro. Ele errou a mira, por que sua bala atinge alguma coisa de vidro bem atrás de mim. Espero. Preciso lhe dar um tiro certeiro. Espero o momento que ele sai da toca. Fico quieta. Deixo com que ele se convença de que sua bala me pegou, de qualquer forma. E então, quando ele abaixa a guarda, lhe dou um tiro fatal.
    Ele desaba no chão. Meu trabalho acabou aqui embaixo. Tenho contas para acertar com Jack. Tenho sorte, aquela foi a ultima bala do meu revólver. Pego a arma do primeiro capanga que eu matei e subo. Estou num corredor escuro. Ele se escondeu. Eu avanço para uma porta entreaberta, mas ele me pega por trás. Jack me dá uma chave de braço e aponta a arma para minha cabeça. Suas forças estão enfraquecidas, sua perna ainda está sangrando. Mesmo assim, Jack é forte. Mas eu tenho uma carta na manga. A unica forma de sair dessa é atacar o ponto fraco. Puxo uma faquinha do meu bolso e a enfio com toda a força em seu ferimento.
Ele grita e folga o aperto.
Giro os calcanhares e lhe dou uma coronhada na cabeça com a ponta da arma.
Ele perde a consciência.
Isso é tudo.

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