Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

27.7.13

[CONTO] Fúria - Capítulo 12

Eu estaciono o carro em frente ao escritório, da mesma forma que fiz durante todos esses anos.
     Há muito tempo executo essa rotina. Saio de casa, dirijo, estaciono o carro, dou uma olhada no retrovisor, entro. Dessa vez, quando olho para o meu reflexo, vejo uma Liza tão exausta quanto nunca. As camadas de maquiagem escondem as olheiras profundas, mas o ar cansado permanece ali. Tudo está diferente agora. O que me faz pensar em como uma coisa de anos, pode mudar tanto em questão de semanas?

   Nos últimos dias me ocupei em pensar no que Rachael me disse. Ela está certa, disso não tenho duvida, mas creio que não haja como voltar atrás. Eu estou em um jogo. E se eu comecei, eu devo ir até o fim.
   Pra falar a verdade, não tenho medo de uma morte trágica. Eu nem sequer me importo comigo. Minha única preocupação era manter a minha irmã longe dessa história toda. Eu achava que omitindo coisas dela era a melhor forma de livrá-la dessa encrenca. Só que agora que Rachael já sabe de tudo, não posso evitar em pensar que tudo o que eu faça daqui para frente irá afetá-la de alguma forma.
      Quando eu abro a porta do gabinete, encontro Morgana, Lauren e Will. Will. Nós quase não nos falamos depois daquele beijo. Mas não pense que estamos nos evitando, o problema é que a nossa nova chefe está o mergulhando em um mundo de trabalhos. Will está tão sobrecarregado, que quase não o vejo mais no escritório. Mas então ele está aqui. E o que me surpreende não é sua presença e sim a forma como ele me encara. Na verdade, como todos me encaram. Eu analiso a expressão de cada um. Morgana está sentada em sua poltrona me encarando com o mesmo olhar neutro e frio de antes. Lauren, que vivia sorridente, me olha séria. Will me lança um olhar ainda mais significativo e preocupado, abaixando a cabeça logo em seguida. Há algo de muito errado acontecendo. Não tenho tempo de levantar suposições, pois acabo voltando toda a minha atenção às palavras de Morgana:

"Que bom que chegou, Vaccari. Há uma visita para você."

"Que visita?"
   - Solto. Olho para Will em busca de uma resposta, mas ele não esboça nada.

"Lauren, por que não a acompanha até a sala do interrogatório?"
   - Morgana sugere. Lauren me lança um olhar que diz "vai na frente" e eu saio da sala. Assim que ela fecha a porta, eu digo:

"O que está acontecendo?"

"Eu não sei. Quando eu cheguei Will e Morgana já estavam lá. Falavam sobre uma visita importante. Alguém que tem algo muito sério para falar com você. Eu não faço a miníma ideia de quem seja, mas você deve saber, não é?"

  Eu não respondo. Nós duas então seguimos até a sala do interrogatório. Lauren fica no corredor e eu entro sozinha. Então eu entendo o olhar preocupado de Will. É um choque ver que a minha visita é o homem que encontrei no Wall Street duas vezes.
   É como eu disse antes.
   Eu estou em um jogo.
   Não há como retroceder.

"Engraçado. Já nos encontramos várias vezes e nunca tive a oportunidade de conversar tranquilamente com você."
  - Ele diz. Ele sabe que não posso tentar nada aqui dentro. Ninguém sabe sobre a nossa ligação. Ninguém, exceto Will. Eu estou chocada em saber que ele ainda está vivo, apesar de todos os tiros que levou. Will tinha certeza que o tinha matado quando eu arranquei com aquele carro. Porém, infelizmente nenhuma das balas atingiram um órgão vital. Eu o examino e vejo que está cheio de cicatrizes, arranhões e curativos espalhados pelo corpo.
"Me disseram que aqui, depois de tudo o que aconteceu, você poderia ser mais cordial comigo. Quem sabe poderíamos até fechar um acordo, coisa que a senhorita certamente está disposta a fazer, não é?"

"Não vou combinar nada com você."
    - Cuspo as palavras para ele, que me dá um sorriso derrotado e balança a cabeça.

"Oh Liza,"
   - Ele diz.
"Pensei que você já tinha aprendido a lição."

   Eu rio com escárnio, incrédula do que ele disse.

"Lição?!"
  - Solto. Eu estou rindo, mas minha voz demonstra a minha irritação.
"Se acha que seus lacaios pobremente armados conseguiram me amedrontar, você está louco."

"É uma pena,"
  - Ele diz.
"Que eu precise tocar em sua família para deter você."

  Meu deboche se vai com essa ultima frase.

"Do que você está falando?"

   Ele olha para mim com falsa piedade e diz:

"Lamento."

   É o suficiente. Eu me levanto e saio da sala. Estou correndo em direção ao carro enquanto Will me chama. Eu posso ouvir seus passos rápidos em minha direção, mas não vou parar. Eu entro no carro, bato a porta e dirijo em disparada até minha casa. Eu não estou nem aí se não estou usando cinto de segurança, ou desrespeitando alguma lei de trânsito. Eu preciso ir para casa o mais rápido possível. Eu nem sei quanto tempo demora, só sei que parece uma eternidade. Quando abro a porta de casa, começo a gritar o nome dela mesmo sabendo que ela não está mais lá. Eu abro gavetas, mexo em coisas, tentando achar algum rastro dela e dos sequestradores. Ando pela casa, completamente desnorteada. Tudo está revirado. Há papéis espalhados, vasos quebrados e o retrato dos meus pais está rachado. Eu me agacho no meio da bagunça, com as mãos cobrindo o rosto. A sensação é de que estou prestes a entrar em algo como um colapso nervoso. Braços envolvem os meus braços e um corpo se cola as minhas costas. Will veio teimosamente atrás de mim.

"Não deveria estar aqui."
   - Digo baixinho. Ele respira no meu cabelo e sussurra um "Shiiii" pedindo silêncio. Eu sinto minha garganta fechar e por mais que eu tente, não posso conter as lágrimas e as convulsões que vêm junto com elas. Will me levanta e me acomoda no sofá, entre suas pernas. Eu não tenho vontade de dizer nada, apesar de ter muita coisa para falar. Eu simplesmente me canso de tentar explicar ou mostrar para ele por que minha vida está de cabeça para baixo. Não é preciso. Will me entende. E se não entender, também não importa agora. Eu fico respirando seu cheiro em silêncio até me acalmar. Quando eu finalmente paro de chorar, eu me sento e enxugo as lágrimas com as mãos. Ele me observa e diz:

"Nós vamos encontrá-la."
 
"Como?"

"Eles tentaram te matar várias vezes. Você escapou em todas. Agora, eles só querem algo que possa te arruinar completamente. Eles não seriam burros em matar Rachael. Isso só teria o efeito contrário. Nós precisamos de tempo, Liza."  
   - Ele diz. Então ele ajeita meu cabelo para trás e continua:
"Nós vamos conseguir. Só precisamos manter a calma. Eu estou disposto a fazer o que for preciso para resgatar sua irmã. Eu só preciso que você se mantenha firme. Não podemos quebrar agora. Este é o momento de estar forte, tudo bem?"

  Eu concordo com a cabeça. Esse plano de vingança parece tão estúpido perto de tudo o que está acontecendo agora. Eu matei três pessoas. Eu declarei guerra com os assassinos dos meus pais. Eu ataquei, agora estou sendo atacada.

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