Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

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Rudson Xaulin

RESENHA
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AUTORAIS
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1.7.17

[RESENHA] A Abadia de Northanger

Escrito ainda na juventude de Jane Austen e publicado postumamente, em 1818, 'A Abadia de Northanger' é, sem dúvida, um dos romances mais elaborados da época – uma comédia satírica que aborda questões humanas de maneira sutil, tendo como pano de fundo a cidade de Bath. O enredo gira em torno de Catherine Morland, que deixa a tranquila e, por vezes, tediosa vida na zona rural da Inglaterra para passar uma temporada na agitada e sofisticada Bath do final do século XVIII. Catherine é uma jovem ingênua, cheia de energia e leitora voraz de romances góticos. O livro faz uma espécie de paródia a esses romances, especialmente os escritos por Ann Radcliffe. Jane Austen faz um eloquente contraste entre realidade e imaginação, entre uma vida pacata e as situações sinistras e excitantes que os personagens de um romance podem viver.

Como é de praxe neste blog, Jane Austen é um nome que aparece nas resenhas dos romances de época no Carpecult, desta vez, com um livro lançado simultaneamente ao famoso "Orgulho e Preconceito", publicado pela primeira vez em 1813, mas que possui o enredo mais distante possível da estória supracitada. É evidente a tendência de Austen para a crítica e sátira embutida em seus romances, mas "A Abadia de Northanger" é talvez o que externaliza mais intensamente este perfil.

O início apresenta uma fórmula básica comum dos livros de Jane; a heroína, geralmente subestimada de alguma forma pela sociedade - às vezes a "baixa opinião" tem fundamento; pobre, numa ingênua busca - ou não, mas ela costuma encontrá-lo mesmo assim - por seu herói na alta sociedade inglesa. Austen não é pretensiosa no plot, fazendo, ao invés, com que ele siga um curso comum dos romances de época, e focando sua atenção no desenvolvimento da história e não no que propriamente acontece. Em palavras mais simples, o leitor de Jane Austen já sabe que a protagonista terá um final feliz, mesmo que ela passe por mais percalços que o comum, portanto o foco de sua leitura se torna a narração de sua vida e personalidade.

Devo dizer que há uma dose de mistério em "A Abadia de Northanger" até então inédita aos livros da autora, mas que faz parte do processo de construção da sátira. A autora se torna uma voz mais mordaz que de costume no plano de fundo, quando na narrativa, decide abordar as velhas disputas de ego do "meio social". Este é um livro que fala sobre o envolvente mistério dos romances góticos, enredos cheios de aventura e riscos que muitas vezes se afastam da realidade; não que Jane deseje desmerecer a "falta de realismo" de tais obras, pelo contrário: parte de seus comentários satíricos se baseiam na suposta superioridade daqueles que desprezam a imersão num mundo fantasioso.

"Embora as nossas obras [romances] tenham agradado muito mais e duma forma mais sincera do que as de qualquer agremiação literária do mundo, nenhuma foi tão censurada. Deram-nos quase tantos inimigos como leitores, devido ao orgulho, à ignorância, enquanto milhares de penas elogiam o talento daquele que pela milionésima vez resume a história da Inglaterra [...]."

Catherine Morland é mais jovem do que as heroínas apresentadas nos três romances já resenhados por este blog; a Elizabeth de "Orgulho e Preconceito", as irmãs Elinor e Marianne de "Razão e Sensibilidade", e Anne de "Persuasão" tem pontos de vista idealistas de questões sobre a vida e as pessoas em doses e ângulos diferentes, mas o idealismo soa mínimo em todos os casos se comparados à Catherine. O caráter de comédia satírica fica na dificuldade apresentada pela protagonista em separar a ficção de seus romances góticos - seu gênero preferido, da realidade de sua nova (mas nem sempre tão legal) vida em Bath.

O herói, por sua vez, é charmoso e afável como são os protagonistas masculinos de romances de época. Apesar do fato de Henry Tilney ser cativante aos olhos do leitor, o personagem é colocado em segundo plano - às vezes, terceiro - na narrativa, voltada quase que exclusivamente nas descobertas e euforias de Catherine em sua estada numa sociedade mais moderna e diversificada que a de seu antigo contato. A visão sonhadora e por vezes exagerada da heroína com relação a quase tudo o que se dizia respeito aos aspectos básicos de sua nova fase se intercala com as inserções da autora no enredo, ora satirizando a senhorita Morland, ora satirizando o comportamento da sociedade ao seu redor.

"[...] Aos 15 sua aparência começava a melhorar. Ela passou a fazer cachinhos nos cabelos e a desejar ir a bailes; sua tez ficou mais bonita; seus traços foram suavizados por faces mais cheias e coradas, os olhos ganharam vivacidade e o corpo, simetria. Seu amor à lama deu lugara uma inclinação por belas roupas, e ela ficou mais limpa à medida que foi ficando mais bonita [...]. Ser quase bonita é, para uma menina que havia sido sem graça durante seus primeiros 15 anos, um prazer maior do que jamais sentirá alguém que foi uma beldade a vida inteira."

A distância de Tilney no contexto geral do livro contribui para a característica do "romance gradativo"; apesar do claro otimismo expresso na forma como os enredos sempre começam e terminam, a superficialidade da relação inicial de Catherine-Henry, em especial da parte dela, não é ignorada ou mascarada. Mesmo quando os dois se aproximam, sempre há a sensação de que Tilney enxerga o envolvimento de forma mais sensata e profunda que Catherine. A presença do personagem de caráter dúbio, geralmente revelado no final (aka Sr. Wickham), lança uma luz pragmática numa história que no final das contas é utópica; pode não haver fantasmas escondidos em abadias, ou tantos ladrões a solta na realidade de Jane Austen, que escreve livros onde moças pobres e desinteressantes casam-se com homens definidos pelo oposto de seus defeitos, mas a maldade ainda existe, espreitando nos cantos escuros dos salões de festa.

Link da resenha de outra obra de J Austen: Persuasão