Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

17.4.17

[RESENHA] O Perfume da folha de chá


Em 1925, a jovem Gwendolyn Hooper parte de navio da Escócia para se encontrar com seu marido, Laurence, no exótico Ceilão, do outro lado do mundo. Recém-casados e apaixonados, eles são a definição do casal aristocrático perfeito: a bela dama britânica e o proprietário de uma das fazendas de chás mais prósperas do império.
Mas ao chegar à mansão na paradisíaca propriedade Hooper, nada é como Gwendolyn imaginava: os funcionários parecem rancorosos e calados, e os vizinhos, traiçoeiros. Seu marido, apesar de afetuoso, demonstra guardar segredos sombrios do passado e recusa-se a conversar sobre certos assuntos.
Ao descobrir que está grávida, a jovem sente-se feliz pela primeira vez desde que chegou ao Ceilão. Mas, no dia de dar à luz, algo inesperado se revela. Agora, é ela quem se vê obrigada a manter em sigilo algo terrível, sob o preço de ver sua família desfeita.

Este é um livro no qual a sinopse aponta para dois aspectos unidos; o romance de época, apesar da história se passar no início do século XX, e o mistério. A cronologia que envolve a trama me foi especialmente interessante, já que dificilmente encontro livros que se passem na primeira metade de 1900 sem ter seu script focado nas guerras do período. Estamos falando de um cenário pouco comum em O Perfume da folha de chá, mas com temas e questionamentos bem familiares pincelando o enredo: escravidão e imperialismo, racismo, conflitos familiares e as doses de machismo envolvidas nisto.

Nas primeiras páginas, Dinah Jefferies apresenta uma Gwendolyn em seus tenros 19 anos, com toda a insegurança e euforia idealista latente, em meio a um país e um estilo de vida que divergem totalmente do que ela está acostumada. Como estamos falando do Ceilão, uma colônia britânica em pleno Oceano Índico - a fins de informação, ela corresponde ao Sri Lanka atual -, aquelas velhas características mais presentes em romances do século XVIII e XIX, como sociedades e elites escravagistas, estão presentes aqui também. Ao mesmo tempo em que elementos do passado aparecem na narrativa, o frescor do início de um novo século - e de uma nova era -, se faz presente em momentos espaçados. Ainda que a guerra não seja elemento principal, ela aparece de forma adjacente, junto com outros acontecimentos do período e mudanças locais. Aspectos da cultura cingalesa, as diferentes religiões que convivem na ilha, as diferenças étnico-sociais, as relações entre patrões e empregados, as reivindicações trabalhistas e o impacto das mudanças do mundo externo na colônia criam uma rica colcha de retalhos que te guiam na vida nova - e complicada -, de Gwen.

Apesar da pouca idade e inexperiência, o equilíbrio comumente apresentado pela protagonista é um ponto que ajuda na boa opinião do leitor sobre a personagem; entretanto, ao mesmo tempo que o controle emocional de Gwen te faz esquecer de seus 19 anos, o aspecto ingênuo e romantizado da personagem te faz lembrar de sua idade e condição anterior. Gwendolyn vem de uma família de ares aristocráticos, numa realidade calma e estável no interior da Grã-Bretanha, com um bom relacionamento familiar e uma vivência a nível micro que a manteve longe do redemoinho oscilante no qual boa parte do mundo estava mergulhado. Talvez seja o contexto anterior de sua vida que gera a surpresa no leitor, ao vê-la adaptar-se a uma mudança tão drástica sem nenhuma grande crise.

Personagens ligados a família de Laurence e Gwen, e ao círculo social do Ceilão surgem nesta primeira fase. A profundidade nítida de quase todos os coadjuvantes; Verity, a irmã problemática de Laurence; Savi Ravasinghe, o artista nativo que consegue a proeza de ascender a classes mais altas; Fran, Cristina e Naveena, faz com que todos eles pareçam apresentar, em suas vivências individuais, pontos de vista diferentes quanto a época vivida, apesar da narrativa se passar em terceira pessoa e ter por foco os problemas internos de Gwendolyn. São as lacunas abertas no que diz respeito ao passado e às intenções dos personagens supracitados que vão gerar o clima de mistério, mesmo quando não há nada acontecendo. Esses pontos em aberto se fazem presentes em todas as fases do enredo, ora minimizados, ora obtendo respostas parciais; é exatamente o gosto de mistério e a sensação de que algo está por vir, um dos atributos que te prendem ao livro no início, mais parado.

A aura romântica que envolve a personagem e seu relacionamento com Laurence se quebra abruptamente no dia do parto de seu primeiro filho. Como dito antes, a narrativa deixa clara a existência de questões não esclarecidas na vida de Laurence, mas a situação se torna mais delicada quando a própria Gwendolyn passa a ter segredos a guardar.

"Gwen, que até então conseguira manter seus sentimentos sob controle, dobrou-se como se tivesse levado um soco no estômago. Ele estendeu a mão para ajudá-la, mas Gwen recusou a ajuda. Caso aceitasse um gesto de compaixão, tudo o que vinha guardando dentro de si transbordaria, e seu controle cairia por terra."

Os conflitos internos da protagonista, seus estados de ânimo voláteis e a forma como ela tenta conviver com seu segredo são aspectos desenvolvidos de forma crível, e acentuados a cada folha virada. Assim como na primeira fase, após o pico da quebra abrupta de tranquilidade, a trama volta a ficar parada, mas jamais monótona. O próximo pico acontece quando já se passa da metade do livro, onde o cerco se fecha. Você tem a sensação de que Gwen está pisando em ovos, prestes a quebrar, interna e externamente, a camada fina de calma e equilíbrio que envolve sua vida.

As duas primeiras fases do livro apresentam linhas parecidas, com a calmaria de seu início e desenvolvimento, e a quebra repentina disso no final. A terceira, por sua vez, como uma fase de respostas, assume um ritmo de acontecimentos mais rápido, frenético em comparação às partes anteriores. Livros de trama parada, como este e outros já resenhados no blog - aka Morte Súbita, O Guardião de memórias e até mesmo o Punição para inocência, da Agatha Christie - não se tornam monótonos quando apresentam, de forma detalhista e real, as nuances que envolvem seus personagens, o cenário e as influências externas sobre suas vidas, e a forma como reagem a tudo isso. O Perfume da Folha de Chá, assim como todos os citados e "linkados" neste post, alcançaram esse objetivo.