Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

16.1.17

[RESENHA] Infância, adolescência e juventude - parte 1

Publicadas em folhetim nos anos de 1852, 1854 e 1857, Infância, Adolescência e Juventude são talvez as obras mais autobiográficas do grande escritor russo Lev Tolstói (1828-1910). Quase uma década antes de Guerra e paz e duas antes de Anna Karênina, o autor inspirou-se em eventos e pessoas reais para compor esta trilogia. É aqui que Tolstói revela seu domínio narrativo quanto à descrição da vida interior dos personagens – técnica que é a característica literária principal de suas obras-primas.
Narradas por Nikolai Irtêniev, garoto nascido na nobreza rural, as três novelas formam um verdadeiro painel da Rússia czarista. As relações entre senhores e servos, os devaneios de juventude, os costumes da alta sociedade moscovita – esses e outros temas caros ao autor são tratados com maestria neste romance de formação, pela primeira vez disponível ao leitor brasileiro em tradução direta do original em russo.

Esta é a primeira vez em que tenho contato com a escrita e as obras de Tolstói, e da mesma forma com que "Infância, adolescência e juventude" é dividida em 3 ricas fases, esta resenha - que provavelmente será menor do que as últimas - será feita em três partes, sendo a primeira delas focada na infância. Essa é uma obra de caráter autobiográfico, apesar do autor não se colocar explicitamente como protagonista do enredo; são as reflexões e descrições quanto às etapas da vida de Nikolai Irtêniev, nascido na nobreza de uma Rússia comandada por Czares. 

Confesso que me foi necessária uma pesquisa sobre o Império Russo antes de fazer essa resenha, mas pelas informações soltas ao longo do livro, supõe-se que o período da Rússia czarista onde Nikolai cresceu corresponde ao século XIX, mais especificamente, em algum ponto da primeira metade dos anos 1800, o que corresponde aos primeiros anos de vida do próprio autor. Os latifúndios, costumes da sociedade local, as disparidades socio-econômicas entre nobres e camponeses num reino a moldes feudais, a educação e religião da época são aspectos tão profundamente inseridos na narrativa principal que é impossível não notá-los. Apesar de, no final das contas, se tratar de um único livro, todo o enredo está em formato de trilogia, com três etapas nitidamente separadas, sendo o "Infância" formado por 28 capítulos. A narrativa é leve, apesar de ser carregada de profundidade, e é palpável a diferença das identidades do narrador e do personagem principal.

Nikolai Irtêniev, criado com seus dois irmãos numa propriedade rural, eventualmente entra em contato com a relativamente agitada sociedade de Moscou, onde se passa a maior parte desta fase; sua inteligência e aguçado juízo de caráter são surpreendentes para a idade, mas a forma como seus pensamentos são narrados em cenas próprias faz transparecer a inocência típica de um garoto de 10 anos. É apenas nos monólogos que o caráter do narrador aparece; um homem adulto, evocando memórias da infância misturadas à imaginação, necessária para preencher as lacunas de uma lembrança antiga e fragmentada.

"Quando se tenta ressuscitar na imaginação os traços de uma pessoa querida, surgem tantas recordações do passado que, por meio delas, eles aparecem deformados, como se você os visse através das lágrimas. São as lágrimas da imaginação." 

Em meio a toda confusão infantil quanto aos sentimentos e intenções dos adultos, Nikolai revela uma personalidade analítica, quando ele reflete sobre seus próprios sentimentos e motivações, e os compara com as atitudes de pessoas a sua volta. Ele se mostra consciente de sua inteligência, mas possui uma autoestima frágil que o faz pensar que sua única chance de conquistar a afeição e o amor das pessoas ao seu redor se dê através de seu desempenho intelectual. Nestes momentos menos felizes, o enredo mistura a visão melancólica do adulto narrador com as preocupações e conflitos de uma mente de criança.

"A vaidade é o sentimento menos compatível com a verdadeira dor e, ao mesmo tempo, esse sentimento está tão arraigado na natureza humana que muito raramente uma dor, mesmo a mais forte, consegue expulsá-la." 
A forma como os momentos são narrados, e o modo intenso como essas emoções e conflitos são descritos na narrativa, contribui com a tese de que se trata de um livro autobiográfico. Entretanto, diferentemente do que se imagina quando o assunto são livros biográficos, esta é uma obra de aspecto muito mais interno do que externo, muito mais pensamento do que experiências de vida, misturando momentos reais de uma vida com ficção. Após algumas páginas de suave navegação na mente infantil de Nikolai, você vai se deparar com o título "Adolescência" e vai sentir o entusiasmo da expectativa dos novos conflitos e questionamentos de uma nova fase, como se pudesse acompanhar de perto os efeitos do tempo e da vivência sobre um ser humano.[...]