Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

20.7.16

[RESENHA] O Perfume

Em Paris, no ano de 1738, nasceu Jean Baptiste Grenouille. Filho de uma feirante, ele veio ao mundo em uma barraca de peixe na cidade mais suja e mal cheirosa do mundo ocidental no século XVII. Após a morte de sua mãe, sobrevive a doenças e pestes em diversos lares miseráveis. Contra todos os prognósticos, Grenouille acaba desenvolvendo duas características que mudariam sua vida - ao mesmo tempo em que não tinha nenhum cheiro, ele era dotado de um olfato apuradíssimo. Este último talento permite que deixe para trás a pobreza para brilhar na indústria da perfumaria. Mas Grenouille, um personagem amoral, não ambiciona a fama ou a fortuna que sua habilidade poderia lhe proporcionar, mas um poder maior sobre as pessoas, baseado na sedução dos odores sobre a alma humana. Assim, Grenouille dedica-se obsessivamente, e sem recuar diante do crime, à preparação de um perfume irresistível, que permitisse conquistar e dominar qualquer ser humano.

Então, eu costumava ser o tipo de leitor que trata com indiferença descrições de lugares, objetos ou odores, o que torna a minha leitura de O Perfume, talvez o livro mais complexo em quesito de narração descritiva, numa grande ironia do destino. Eu também acreditava que narrações descritivas seriam muito monótonas para mim, mas a forma precisa e fascinante como Patrick Suskind descreve todas as cenas, locais e principalmente, odores, acaba por ser um dos fatores que te prendem ao livro do ínicio ao final.

A forma como a Paris do século XVIII é descrita nada tem a ver com a atual Paris romantizada, com seus pontos turísticos e histórias de amor; os odores desagradáveis de lixo, carne estragada, suor, fezes, vômito e doenças são lançados ao leitor sem delicadezas ou eufemismos, a ponto de te fazer torcer o nariz. Em contrapartida à nossa repulsa pelos odores supracitados, o pequeno Jean Baptiste-Grenouille não rejeita ou despreza aroma algum, sendo todos eles captados e cuidadosamente analisados por seu apurado nariz, desde o nascimento. Novamente, o contexto histórico do enredo é levado em conta: Iluminismo, valorização da racionalidade e intelectualidade, expansão científica e filosófica. Por que estou citando isso? No decorrer da resenha, você, caro leitor, vai entender.

Grenouille nasce sob circunstâncias que apontam para sua morte prematura; sua mãe, uma vendedora de peixe numa das muitas ruas feias, sujas e repletas de bácterias de Paris, já havia experimentado dar a luz a bebês natimortos tantas vezes que não acreditava que seu quinto e último filho poderia sobreviver. Contra todas as expectativas, Grenouille está vivo, e a sua sobrevivência leva sua própria mãe, acusada de infanticídio, à forca. Comparado a um "carrapato", Jean Baptiste passa sua infância e juventude sobrevivendo através de seus instintos, em condições degradantes, sem qualquer tipo de afeto ou educação decente.

Este é um livro perturbador porque te apresenta uma nova visão de mundo, sustentada única e exclusivamente na percepção de odores. Todos os outros sentidos de Grenouille eram regidos por seu olfato, sua linguagem desenvolvida através dos estímulos captados por seu nariz; a forma como o universo de Grenouille era incompreendido pelos personagens secundários te faz refletir sobre as ramificações da intelectualidade humana, e o quanto nossos conceitos acerca dela podem ser limitados. Para quem lê e acompanha a evolução olfativa de Grenouille, o mesmo é considerado um gênio. Para os personagens secundários, o protagonista é caracterizado como um débil mental por não aprender segundo o modo convencional.

[..] Ele só proferia palavras principais, a rigor, só nomes próprios de coisas concretas, plantas, animais e pessoas, e também só quando essas coisas, plantas, animais ou pessoas sem querer o dominassem olfativamente. […] Tinha a maior dificuldade com palavras que não designassem algo que cheirasse, portanto com conceitos abstratos, sobretudo de natureza ética e moral.

Durante toda a narrativa, o relator refere-se a Grenouille como um carrapato, um monstro, ou algo não-humano, e uma aura quase "sobrenatural" é conferida ao personagem. Suas doenças e repentinas curas fazem alusão a períodos de "hibernação" do personagem, sua convivência com outros personagens traz a desgraça sobre o meio, ele não demonstra qualquer tipo de afeição, vínculo, amor ou até mesmo mágoa por quem quer que seja. Grenouille não enxerga a si próprio como um ser humano, e o objetivo de sua sobrevivência passa a se basear, a partir de um determinado momento do enredo, apenas na missão de criar o melhor aroma do mundo.

A forma como o protagonista nota a volatilidade das conclusões e do julgamento humano é especialmente interessante neste período da história; como eu citei há alguns parágrafos, em pleno surgimento e expansão do Iluminismo, a sociedade da época considerava a si própria como muito racional e firme de suas convicções e conhecimentos adquiridos, entretanto, o até então desconhecido poder de manipulação através dos odores, descoberto apenas pelo tão subestimado Grenouille - através de experimentos que o levam a imitação do odor humano -, acaba por ser um tapa no rosto para essa sociedade, e dependendo da situação, até mesmo para o próprio leitor.

No fundo, constatou que podia contar às pessoas o que quisesse. Uma vez que tivessem adquirido confiança – e elas adquiriam confiança em relação a ele à primeira inspiração do seu cheiro artificial –, elas acreditavam em tudo. 

Suskind apresenta para o leitor um personagem áspero, uma realidade infeliz, uma narrativa nada delicada e um livro que teria tudo para ser extremamente denso, mas não é. Grenouille, assim como o enredo em si, apesar de tão apático de emoções, consegue ser transmitido ao leitor com tamanha empatia que transforma a experiência de ler cenas e uma história tão repleta de episódios horríveis numa leitura leve, reflexiva e deliciosa.