Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

20.12.13

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 11


LIZA
Eu estou em um restaurante, no interior de Londres. Meus olhos se fixam na mulher de cabelo curto que canta Amy Winehouse lá na frente. Sua voz é uma mistura diferente e interessante, ao mesmo tempo. Alguma coisa entre Lana Del Rey e Regina Spektor. Seu nome é bem familiar; Alicia Hinnendael. Beth não queria que eu viesse, mas eu escapei de madrugada e sei que ela está no mínimo contrariada porque estou fora há mais de dois dias. Alicia sabe que estou aqui atrás dela. Ela canta toda a música You know i'm no good e quando termina, se senta de frente para mim. Ela é muito mais velha do que eu, mas parece mais jovem do que realmente é, e está bem séria. Para falar a verdade, eu não a vi sorrindo em nenhum momento desde que cheguei aqui.

"Então, moça, em que posso servi-la?"
    - Alicia diz, com um sorriso mordaz.

"Devo confessar que você canta muito bem."
   - Digo. Ela ri azedo e responde:

"Eu suponho que você não veio aqui para elogiar minha voz, portanto, eu agradeceria se fosse direto ao assunto."



"Já que prefere..."
- Digo.
"O motivo que me trouxe aqui tem um nome, que é Tony Vaccari."
 
  Alicia levanta uma sobrancelha ao me ouvir falar este nome e então me pergunta, com ceticismo:

"O que tem ele?"

"Eu sei que um dia ele já foi o seu professor na faculdade e tenho uma leve desconfiança de que ele tenha sido o responsável pela sua expulsão."
  - Solto. Ela me encara em silêncio por um tempo, desconfiada.

"Como você sabe disso?"
   
"Poxa, Alicia. Eu pensei que você já tinha percebido algo familiar em mim."
    - Ela examina o meu rosto, detalhe por detalhe. Até que seu rosto vai se contraindo numa carranca e ela finalmente diz:

"Você é uma Vaccari."
    - Sorrio.
"O que você quer de mim?"

"Eu tenho um enigma a decifrar, Alicia, e infelizmente, você faz parte dele."

"Já não basta o que já fizeram contra mim?! Você quer me arruinar ainda mais?"

"Não."
   - Digo.
"Só quero a verdade."

"A verdade?! Pois então, eu lhe direi uma verdade. A sua família não presta. Eu não sei qual grau de parentesco você compartilha com o Tony, mas se eu fosse você, teria vergonha de ter o mesmo sangue que ele."

"Ele é o meu pai."
   - Solto. Ela parece surpresa ao ouvir isso.
"E eu preciso saber exatamente o que ele fez para você."

Alicia se cala por um bom tempo. Então ela tamborila com os dedos na mesa, respira fundo e diz:

"Eu não sei até onde você sabe sobre mim, mas eu tinha uma amiga na minha classe. Sandra. Nós duas eramos alunas do Tony e ela tirava notas altas, o que era algo frequentemente elogiado por ele. Aos poucos eu passei a perceber que seus elogios não eram apenas algo que um professor diz para uma boa aluna. Tinha algo mais ali. Eu fiz Sandra me confessar que tinha um caso com ele. Então eu comecei a montar a armadilha. Eu não me importava com ele, mas sabia que isso seria terrível para ela. Eu deveria levar em consideração o fato de que eramos grandes amigas, mas ela recebia presentes tão caros dele... Eu tava passando por um momento difícil e você sabe, as pessoas são capazes de fazer coisas loucas quando precisam de dinheiro. Ele tinha dinheiro, eu sabia, na verdade ele tinha muito luxo para alguém que era professor. Ele tinha esposa, uma filha e um nome a zelar. Eu os segui, eu cuidei de tudo nos mínimos detalhes e deu certo. Eu consegui gravar um vídeo dos dois, juntos. Desde então eu passei a chantageá-lo. Tudo estava indo muito bem, eu tava faturando uma boa grana... Mas o que eu não esperava era uma vingança dele. Eu estava tão certa que me daria bem que não percebi o que ele estava fazendo... De repente, de uma hora para outra, tudo desmoronou. Eu encontrei minha câmera, aquela no qual gravei o vídeo, quebrada, meus arquivos apagados e as pessoas não me tratavam mais da mesma maneira."
   - Alicia conta. Sua voz está baixa e ela olha para os lados com frequência. Ela para de falar de repente e eu pergunto:

"E o que aconteceu?"

"Eu fui vítima de um viral."
    - Alicia sussurra.
"Inúmeros blogs anônimos, contas falsas em várias redes sociais espalhando mil absurdos sobre mim. Eu nunca pensei que algo assim pudesse ter um efeito tão devastador, mas teve. As mentiras se espalharam rapidamente e todos estavam sabendo e acreditando nelas. Então, o resto você já pode imaginar. As pessoas tentaram me espancar várias vezes na faculdade, até que a situação ficou insuportável e eu fui expulsa. A dona do apartamento também me despejou, afirmando que aquele era um lugar de gente decente e que não tinha como renovar contrato comigo. Eu fui saqueada várias vezes e perdi todo o dinheiro que tinha, inclusive o dinheiro que o seu pai me deu. Daí vim morar na casa dos meus avós e me escondi do mundo aqui, neste lugar, onde pelo menos, as pessoas não sabem o que aconteceu..."

Eu me mantenho em silêncio. Não há nada que eu consiga dizer agora.

"Eu posso não ter sido uma santa, eu admito que joguei sujo com o seu pai, mas eu não fui a única vítima nisso tudo. A Sandra não tinha nada a ver com a chantagem. Ela nunca fez nada para prejudicar o Tony, ela gostava dele. Eu sentia pena dela por isso. Ela se envolveu com um cara casado, que além de tudo era seu professor, que só queria se divertir com ela. Mas, depois do viral, quando eu já estava na casa dos meus avós, um dia eu encontrei..."
  - A voz de Alicia falha. Ela tenta continuar, mas sua voz está quase inaudível.
"No quintal... de manhã cedo, eu sempre acordei antes que todo mundo na minha casa... Um dia eu achei a Sandra lá. Ela caminhava nua, suja de terra, com as mãos sujas de sangue... foi horrível, o quintal era aberto e dava para uma mata repleta de árvores altas... ela cuspia e se engasgava com o sangue que saía em quantidade... ele escorria da sua boca e ela andava com dificuldade. Eu observei ela dar alguns passos e depois desabar no chão, morta. Ninguém sabe, para falar a verdade, eu nem deveria contar isso a você..."

"Eu não contarei isso a ninguém."
   - Respondo prontamente, como se fosse algo automático.
"Eu prometo."

"Obrigada."
   - Ela responde. Então ela desvia o olhar e começa a encarar um dos copos que estão em cima da mesa, com o rosto contorcido de amargura.
"Aquilo foi como uma mensagem para mim. Ele sabia onde eu estava. Ele poderia me matar se quisesse. Eu estava numa casa de interior, acompanhada apenas de um casal de idosos. Ele poderia me matar sem que ninguém soubesse. Caramba! Fui eu que armei para ele! Fui eu que gravei o vídeo, fui eu quem o ameaçou, eu fui a culpada! No entanto, ao invés de me matar, ele mata a pessoa que adorava o chão no qual ele pisava! Que filho da..."

  Alicia se cala. Seus punhos estão tão cerrados que tenho a impressão de que suas unhas feriram a carne da sua mão.

"E você agora tem que conviver com a culpa de ter instigado a morte de Sandra..."
   - Digo.

"Exatamente."
   - Alicia responde. Há outro longo momento de silêncio. Então, ela levanta os olhos para me encarar e diz:
"Ele ainda está vivo?"

"Não."
  - Respondo. Alicia respira fundo e se encosta na cadeira, antes de perguntar:

"Me diz, ele morreu de... morte morrida ou morte matada?"

"Três homens invadiram nossa casa quando eu era uma adolescente. A minha irmã tinha nascido há pouco tempo. Eu vi eles atirarem no meu pai e na minha mãe, então eu fugi. Será que isso é o suficiente para saciar a sua ardorosa curiosidade?"
   - Digo.

"Só o que eu não entendo é como você descobriu sobre mim."
   
  Eu tiro a página do diário de minha mãe do bolso. Ela está um pouco amassada e eu a entrego para Alicia. Observo atentamente as suas reações ao ler as palavras contidas no papel. Alicia não se surpreende muito. Ela mantém o rosto neutro durante toda a leitura.

"Jennifer Vaccari..."
   - Ela diz finalmente.
"Lembro vagamente dela. Ruiva. Olhos verdes. Um pouco quieta demais para alguém que se dizia tão feliz. Eu já deveria ter imaginado; ela sofreu muito nas mãos dele. Mas, porque você tinha que vir até aqui e cavucar toda essa história? Porque não apenas ignorar a minha existência?"

"Se você não percebeu, a dona do diário solicitou que o leitor descobrisse a verdade para ela."
   - Respondo, minha voz naquele velho tom sarcástico.

"Oh sim, e você viajou até aqui apenas para atender aos pedidos da falecida Jennifer Vaccari..."
   - Ela rebate, no mesmo tom que o meu.

"Você não iria querer saber o passado dos seus pais?"
    - Digo, minha voz retornando a seriedade.
"Não importa quantas coisas ruins eles já tenham feito, eu estou aqui para saber o passado da minha família."

"E eu suponho que minhas revelações não foram suficientes para aplacar a sua 'ardorosa curiosidade', não é?"
   - Alicia diz, usando a mesma expressão que usei pouco tempo atrás.

"Não."
   - Respondo. Então eu me levanto da mesa e finalizo:
"Ainda há muita coisa a ser descoberta."

Eu estou caminhando em direção a saída, até que a voz de Alicia me para.

"Liza!"
   - Eu me viro para ela, com uma sobrancelha em pé, sobressaltada pelo fato de que essa é a primeira vez que Alicia Hinnendael pronuncia meu nome. Ela me dá um sorriso fraco e diz:
"Boa sorte."