Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

29.9.13

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 6


LIZA
"Garota, o que é que você está fazendo aqui?"
    - Ela me pergunta. Esta é a minha tia paterna, Beth. Eu me lembro muito pouco dela, mas o suficiente para reconhecê-la. Ela parece chocada e animada ao mesmo tempo, por me ver agora. Mas eu não reajo a sua animação.

"Isso é uma história meio longa."
    - É a única coisa que eu digo. Então há um carro atrás buzinando para que ela abra passagem. Só agora percebo que Beth parou o carro no meio da rua. Ela resmunga um palavrão lá dentro, abre a porta esquerda para mim e diz:

"Pois então, é melhor que você entre no carro e me conte."

 Eu faço o que ela me pede, mas ao invés de lhe contar alguma coisa, eu permaneço em silêncio por um bom tempo. Eu disse que a história era longa e isso não era um eufemismo. A verdade é que eu não sei por onde começar ou se eu quero começar.
  Ela dirige por um bom tempo, vira curvas e passa por algumas ruas estreitas. Estamos nos afastando da área nobre da cidade. Eu sinto uma ponta de saudade dos arranha-céus de NY. Assim como eu sinto saudade de boa parte das lembranças que vieram  daquele lugar.


"Eu tenho que dizer, fiquei surpresa em te ver depois de todos esses anos."
    - Beth quebra o silêncio. Eu olho para ela, mas ela não desloca seus olhos. Eles continuam lá, concentrados, observando o amontoado de concreto e asfalto a sua frente.

"Principalmente pelo fato de que tecnicamente eu deveria estar morta, não é?"
    - Solto. Ela não olha para mim e diz, relaxada:

"Quando encontraram o corpo dos teus pais, disseram que você e sua irmã estavam mortas também. Ninguém acreditou, mas e daí? Ninguém tinha ideia de onde vocês tinham se enfiado."
   - Ela diz e dá uma pausa, esperando que eu responda. Mas como eu permaneço calada, ela continua:
"Mas então, aqui está você. Sã e salva."

"Nem tão salva assim."
    - Digo. Ela olha para mim pelo canto do olho.
"Na verdade, eu quase morri outra vez."

"Como?"
   - Beth pergunta, desviando os olhos de mim. Eu dou de ombros e digo:

"Fiquei em coma, ou qualquer coisa parecida com isso."

"Por que?"
   - Ela pergunta.

"Um tiro."

"Wow."
   - Ela solta.
"Então parece que aquele episódio não te fez fugir de uma vida perigosa."

"E nem você."
    - Digo, olhando para o cabo do revólver que sobressai da calça de Beth. Ela sorri com a minha frase. Faz tempo que eu não tocava em uma arma, mas ela sempre esteve presente em meu sono.

  O apartamento onde Beth mora, fica numa rua pouco movimentada e a faixada do prédio não tem muito destaque. Se um dia eu passasse por ali, tenho certeza que jamais o teria notado. É um lugar simples, com poucos cômodos, mas ao menos, é organizado. Há uma pequena varanda, com um corrimão enferrujado e piso que parece velho e sujo, apesar de não estar. Beth afasta a cortina branca e olha para o horizonte, enquanto acende um cigarro. Eu observo a cena, concentrada na fumaça que sai de sua boca e se dissipam no ar. Quando ela me oferece cigarros, eu estou entretida demais vendo um porta-retrato com uma foto da minha mãe.

"Jennifer era uma boa moça."
   - Beth me diz enquanto se aproxima de mim, seu hálito fedendo a tabaco.
"É uma pena que se envolveu com um homem como o meu irmão."

Então eu a encaro. Ela me encara de volta e dá de ombros:

"Tony pode até ter o meu sangue, mas não vou passar a mão pela cabeça dele."

"O que ele fez?"
   - Pergunto. Ela solta uma risada leve e se senta num sofá velho.

"Muitas coisas."
   - Beth responde.

"Que coisas?"
    - Indago, curiosa em saber que tipo de pessoa era o meu pai. Ela me encara por um bom tempo, então desvia o olhar e diz:

"Se quiser ficar uns tempos aqui, tem um quarto vazio no fim do corredor. Não é muito confortável, mas você vai sobreviver."

Beth se levanta, tentando sair da sala. Ela sabe de algo que eu não sei. Algo que eu não deveria saber. E isso só me deixa ainda mais curiosa. Então, quando ela passa perto de mim, eu agarro o seu braço. Ela me encara e o puxa com facilidade. E a última coisa que a minha tia diz até o final do dia é:

"Liza, vou lhe dar um conselho. Não queira saber disso."

RACHAEL
Eu observo as gotas de água que escorrem na janela da cafeteria. A forte chuva só passou agora. Eu posso até negar, mas não faz sentido esconder a minha preocupação com a Liza. Eu sei o que eu fiz, sei que estou errada, mas ela não poderia sair sem rumo daquele jeito. Então aceitei me encontrar na cafeteria com Will, a última pessoa que eu deveria estar, mas estou aqui pelo bem de todos nós. Eu desvio o olhar da janela de vidro e o encaro. Ele está nervoso, inseguro e estala os dedos compulsivamente. Mal parece o cara dono de si e despreocupado que encontrei quando fui visitar a Liza no hospital. Eu sei que o meu silêncio está o torturando, mas eu não me importo.

"Será que você poderia me contar logo o que aconteceu?!"
   - Ele estoura, então percebe que falou alto demais e olha de um lado para o outro, checando se outras pessoas o ouviram. Por sorte, o resto das pessoas estão ocupadas demais cuidando de suas próprias vidas e não perceberam o seu ataque. Eu tenho vontade de rir dele. Mas seria cruel rir numa situação delicada como essa.

"O que aconteceu,"
   - Começo, me surpreendendo com o quão tranquila minha voz soa.
"É que a Liza descobriu tudo."

"E?"
  - Ele me apressa a falar mais.

"E ela foi embora, arrasada, histérica por saber que escondemos isso dela."
   - Respondo.

"E o que você fez para impedir?"
   - Ele pergunta, tentando controlar o nervosismo em sua voz.

"Nada."
  - Digo, o que o faz ficar indignado comigo. Ele primeiro me olha com descrença e depois, repulsa.

"Como assim você não fez nada?!"
   - Will rosna. Não me ofendo, nem me espanto. A minha convivência com ele deixou de ser harmoniosa há um tempo considerável. Então, o máximo que fazemos é tolerar um ao outro, pelo bem do nosso filho.

"Não importa o que eu fizesse, a Liza não iria me ouvir."
   - Respondo.
"Então eu a deixei, dei-lhe um tempo para esfriar a cabeça."

"E ela voltou?"
"Não."

    Will se cala. Ele cobre o rosto com as mãos e puxa levemente os cabelos da frente. Então eu percebo por que ele e Liza combinam tão bem: ambos são emotivos demais. Ainda mais do que isso; eles são insensatos, selvagens, não sabem controlar suas emoções e agem como seus impulsos mandam. Eu aguardo ele se acalmar, calada. Beberico meu café, até que ele tire as mãos do rosto e me diga:

"É só isso?"

Então é aí que ele chega no ponto.

"Não."
  - Respondo. Então digo a minha real intenção de ter vindo a essa cafeteria.
"Eu recebi uma garota no meu consultório. Ela parecia uma qualquer e eu desconfiei dela. Enfim, depois de alguns tapas, ela me confessou que tinha sido mandada ao meu consultório por... eles."

Will entende o que eu quero dizer no modo como fico tensa ao dizer "eles". Ele não diz nada e eu continuo, enquanto ele me encara atentamente:

"Eles estão atrás de nós. De novo, Will. Eles já sabem sobre a Liza e..."
   - Digo, então dou uma pausa e respiro fundo. Tomo um grande gole do meu café e continuo:
"Pode até não parecer, mas eu me preocupo com a Liza. Ela é a minha irmã e se alguma precisa pedir desculpa a outra essa pessoa sou eu. E mais do que isso, eu me preocupo com o Alex. Ele é o meu filho, portanto, é um Vaccari também."

"Então, o que você quer que eu faça?"
   - Ele me pergunta.

"Eu não sei ainda..."
   - Digo, insegura. É a primeira vez que me sinto frágil nessa conversa.
"Só, cuide deles. Vá atrás da Liza, não deixe ela sozinha."