Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

23.9.13

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 5

LIZA
Eu me sento no sofá, imóvel. Meus olhos se fixam em um insignificante vaso de porcelana. Ainda é muito cedo, mas eu prefiro assim, por que estarei aqui quando Rachael chegar. Eu podia me poupar do aborrecimento e sumir daqui antes que ela aparecesse, mas não consigo. Eu tenho que vomitar o bolo que se forma em minha garganta.
Eu espero há horas, mexendo nos dedos, andando para lá e para cá. Mas agora eu decidi ficar quieta e esperar pacientemente. Então eu fico olhando esse vaso por um bom tempo e nem tenho noção se os meus olhos já piscaram desde que comecei a encará-lo. Eu ainda não chorei. Eu me recuso a chorar agora. Eu só quero que Rachael apareça e tire essa história a limpo. Não vou fazer escândalo, não vou ser agressiva. Eu pretendo falar baixinho e ouvir calmamente os seus argumentos.

"Liza?"
   - Sua voz me acorda do transe; ela está com aquela roupa de ontem à noite. A calça jeans de lavagem clara, a camiseta e jaqueta pretas; o cabelo preso em um nó. Eu encaro o seu rosto. Ela sorri para mim. É incrível a forma como ela finge. Rachael age como nada estivesse acontecendo e eu me pergunto se ela tem um pingo de remorso.

"Acordou cedo hoje?"

"Na verdade, eu nem dormi."
   - Respondo, seca. Seu sorriso enfraquece, mas ela não deixa a máscara cair. Rachael joga a bolsa no sofá a se senta na ponta da mesinha de centro, de frente para mim. Então ela olha para mim e abre o sorriso, o tornando mais radiante; eu me sinto como uma louca e ela fosse a minha psiquiatra, que só me trata amigavelmente para que eu não tenha um ataque súbito.

"Então, como se sente?"
   - Ela me fez essa pergunta no hospital e me faz agora, com a mesma tranquilidade de antes. Rachael sempre soube dominar suas emoções e parecer calma até em momentos delicados. Então eu penso que o tempo a fez mais do que equilibrada; a fez fria. E eu odeio isso.

"Engraçado, eu ia fazer a mesma pergunta a você."
   - Eu digo, quase cuspindo as palavras para ela. Eu não iria ficar nervosa, mas sua frieza me irrita. Rachael me olha confusa, mas ao mesmo tempo, divertida.

"Do que está falando?"
 
"Onde você estava durante a madrugada?"
    - Exijo. Ela se cala. Eu continuo, minha voz se enchendo de fúria a cada palavra dita:
"Por que não fala?! Não sabe?! Pois então, vou responder por você. Até por que eu gostaria muito de saber como vai o seu filhinho, Rachael Vaccari e o porquê de você ter escondido isso de mim por todo esse tempo!"

E então, seu sorriso morre.

"Liza, por favor..."
   - Ela começa, mas eu estou irritada demais para parar.

"Você teve um filho com o Will e nunca me contou! Você escondeu de mim e pretendia continuar escondendo por muito tempo, pelo visto. Me diz, você tinha um caso com ele há quanto tempo? Antes ou depois de eu entrar no coma?"

"Não é bem um caso, é diferente Liza, você precisa entender."
    - Rachael se explica da maneira mais ridícula possível. Ela continua lá, com sua voz calma e fria de antes, enquanto eu grito com ela.

"Eu fico me perguntando, o que mais você esconde de mim? Será que você tem outros filhos? Ou melhor, quantos homens já devem ter passado na sua cama?"
   - Eu cuspo as palavras para ela.
     Então eu ouço um barulho e o lado direito do meu rosto dói.
     Eu a encaro estupefata e ao mesmo tempo satisfeita por ter feito ela perder o controle a ponto de me dar um tapa na cara.

"Nunca mais ouse falar desse jeito na minha casa, entendeu bem?"
   - Rachael sibila. Eu a encaro. Seus olhos são duros e parecem me fulminar. Então eu percebo que a mulher a minha frente não é mais a minha irmã; é como se eu estivesse gritando com um desconhecido. É assim que ela me trata. Eu sou uma intrusa e ela não me deve explicações. De alguma forma, a calma me envolve e eu percebo que não deveria está ali. Então eu faço o que eu já deveria ter feito antes. Eu a encaro, abro a porta e vou embora.
Rachael não vem atrás de mim, não grita o meu nome e nem me pede desculpas. Talvez, internamente eu estivesse torcendo para isso. Eu olho para trás, procurando seu rosto, mas não encontro nada. Então eu ando no meio das folhas secas que caem, sentindo o vento frio de outono e secando as lágrimas. Eu não posso ceder e mergulhar no lamento agora. Não aqui, sozinha, no meio da rua. Eu poderia pegar o carro que ela me deu, mas não vou dar esse gostinho. Eu caminho por um bom tempo e depois de cansada, acabo me sentando num meio fio. Os carros passam muito perto de mim e eu tenho a impressão de que vou acabar sendo atropelada, mas eu não me importo. Eu olho fixamente para o chão, até que um carro para na minha frente.
É um carro preto, bonito. O brilho da lataria me faz lembrar o Bentley em que estive com Will, há vários anos atrás. É uma lembrança muito vaga, que não deveria passar pela minha cabeça já que agora eu deveria odiar Will e todas as lembranças que tenho com ele. Mas eu levanto a cabeça, e o rosto que vejo é familiar. É uma mulher de cabelos curtos, meia idade, que me olha com curiosidade. Então ela tira os óculos escuros e eu me lembro totalmente dela.

"Liza?"
 - É o que ela diz.
    Ultimamente, as pessoas tem pronunciado muito o meu nome.
    Eu me dou conta do quanto estava errada.
    E percebo que eu e Rachael não somos as únicas Vaccari que restaram.
    Ainda sobrou mais uma.
    E o seu nome é Beth Vaccari.