Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

16.9.13

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 4

RACHAEL
A vida como psicanalista pode parecer chata de vez em quando. Eu parei de atender tanta gente como eu atendia antes, no início da carreira. Eu atendo poucas pessoas, pacientes vip's, dou uma olhada nos negócios e vou embora. As vezes eu nem sequer apareço no consultório, como nos últimos dias, por exemplo. Minha mente está cheia demais com problemas envolvendo Liza e Will. Mas então, eu estou dirigindo em direção a clínica que fica no centro de Londres. Depois que Liza entrou em coma, toda a responsabilidade de cuidar da herança dos meus pais caiu sobre mim. Decidi trocar NY por Londres, só por precaução. Não quero que os horríveis episódios acontecidos 10 anos atrás se repitam.
     O motivo da minha visita à clínica é o fato de uma consulta com um daqueles pacientes vip's. A maioria das pessoas que atendo são famosos ou gente muito poderosa, o que é comum, afinal de contas eles são o principal alvo de doenças psicológicas. Isso é o resultado de muita fama e dinheiro entregues a uma pessoa só. Não adianta negar. O ser humano não sabe lidar com poder.
     Eu entro na minha sala, no último dos quatorze andares do consultório. Respiro fundo e me preparo para a visão um riquinho deprimido que já chega dizendo: "Exijo que a consulta seja absolutamente confidencial." As pessoas acham que nós, psicólogos e psicanalistas somos pessoas desprovidas de problemas, cheias de paciência e que resolvemos tudo com apenas um sorriso. Bom, na verdade nós temos paciência. Com os pacientes, pelo menos. Eu fui treinada para canalizar as minhas emoções, por mais fortes que elas sejam. Então, eu estou sempre feliz e disposta a ouvir os seus problemas.
Mas então, quando eu entro em minha sala, a visão me surpreende um pouco. Não se trata de um cara vestido de terno ou uma loira patricinha. Eu vejo uma mulher, com os cabelos tingidos de vermelho, de camiseta, calça jeans simples e os braços cheios de tatuagens. Mas não importa, afinal, ela pagou uma grana alta por essa consulta.



"Muito prazer, eu sou a doutora Rachael Vaccari."
   - Digo simpaticamente, abrindo um largo sorriso e estendendo a mão para a moça; ela não aberta, me olha indiferentemente e diz:

"Eu sei quem você é, se não soubesse, eu nem estaria aqui."
    - Então eu percebo que tipo de garota ela é. Uma pseudo-rebelde, rica, que ao invés de cruzar as pernas e usar roupas sofisticadas como suas irmãs, cobriu o corpo de tatuagens e começou a ouvir rock satânico. Algo como a ovelha negra da família. Sei bem como lidar com esse tipo de gente.

"Seu nome é?"
  - Pergunto, me sentando em minha cadeira, do outro lado da mesa.

"Sandra."
   - A garota diz. Eu decido não fazer aquela abordagem comum, ao invés disso, faço o seu jogo e pergunto displicentemente:

"Por que está aqui?"

  Sandra se debruça sobre minha mesa e diz baixinho, como se estivesse me contando um segredo:

"Porque preciso de ajuda."
   - Eu não esboço nenhuma reação e ela continua:
"Eu tenho problemas com bebidas e drogas. Eu corto os meus pulsos. Não porque eu me sinta triste e sim, por que eu acho a dor prazerosa. É estranho, não é?"

Algo chama a minha atenção. E não é a sua declaração. Sandra tira algo lentamente de dentro dos bolsos. Algo parecido com uma câmera.

"E quando você tirou a conclusão de que precisava de ajuda, Sandra?"
   - Pergunto, fingindo não perceber seus movimentos. Ela começa a falar, o que me dá tempo e a ela também. Ela não percebe que eu estou vendo seus movimentos e embaixo da mesa eu aperto um comando de controle remoto que aciona uma trava de segurança. Ela pode tentar, mas não vai conseguir abrir essa porta de jeito nenhum. Mas então, ela percebe o meu olhar na câmera e se cala. Eu sei o que ela irá fazer. Eu encaro furiosamente os seus olhos e ela se levanta, pronta para fugir. A garota tenta inutilmente abrir a porta, até que eu me aproximo e puxo seus cabelos com força; ela se bate contra a mesa, o que acaba derrubando um vaso no chão. Ela percebe a minha aproximação e investe um golpe em mim, mas eu sou mais rápida e acerto um tapa em seu rosto. A garota perde o equilíbrio, mas logo vem para cima de mim, com suas unhas grandes prontas para acertar o meu rosto. Eu a empurro para o chão e monto em cima dela; quando a garota vai tentar mais um golpe, ela para, por que eu estou com uma caneta de ponta fina mirando seu pescoço.

"Mais um movimento e eu rasgo sua garganta."
   - Eu digo. Ela me encara com os olhos arregalados, ofegante e imóvel.
"Quem é você e o que veio fazer aqui?"

"Eu não posso contar."

"Não vai poder mesmo depois que estiver com a garganta cortada."
   - Eu digo, pressionando a ponta da caneta contra sua pele.

"Eu conto, se você me soltar."

"E quem me garante que você não está mentindo?"
   - Eu pergunto e ela esboça um sorriso. É a primeira vez que a vejo sorrindo e é o momento mais inconveniente para isso.

"Você não tem escolha."
    - Ela rosna.
"Ou você me solta e ouve o que eu tenho para dizer, ou corta a minha garganta sem saber de nada."

   Paro para pensar no que ela diz.
   Infelizmente, ela está certa.
   Eu a solto e me levanto, ao que ela faz logo em seguida.

"Você não deveria ter medo de mim,"
   - A garota que se chama Sandra me diz. Se bem que eu nem tenho mais certeza se esse é mesmo seu nome.
"Deveria ter medo daquele que me mandou vir aqui."

"Quem te mandou vir aqui?"

"Ah, isso eu não posso contar."
   - Agora responde, fazendo ar de falsa tristeza.
"Eu só lhe digo uma coisa: O cara que me mandou aqui não está bem atrás de você e sim da tua irmã. Ele sabe que ela está de volta. E a senhorita tem o infortúnio de ter uma irmã que mexeu com a família dele."

"Escuta aqui,"
   - Eu começo, minha voz cheia de fúria. Eu me aproximo e ela recua, até ficar encurralada na porta. Meu rosto está a centímetros do seu e eu vocifero.
"Você e seu chefe, fiquem longe da minha irmã, entendeu? Nós não somos tão vulneráveis quanto você pensa e a família Vaccari tem um gosto especial para guerra."

A garota ri. Uma risada estridente. Então, ela me encara e diz:

"É claro que tem. Agora, a senhorita, por gentileza poderia abrir essa porta?"

"Não tão rápido."
   - Eu digo e estendo a mão em seguida.
"Me dá a câmera."

"Mas eu não filmei nada..."

"Me dá a câmera agora!"
   - Vocifero. Ela olha para mim furiosa e com certa brutalidade, põe a câmera em minha mão. Eu desativo a trava de segurança e ela me diz, antes de ir embora:

"Eu não queria estar na sua pele."

LIZA
A noite chega e eu estou inquieta. Eu moro numa casa enorme em Londres, e é horrível, por que até agora eu não saí. Eu só passo os dias zanzando por aqui, ou sozinha, ou com Rachael. É como se eu saísse da prisão que era o hospital, para a prisão que esta casa está sendo agora. Mas para falar a verdade, o motivo da minha inquietação não é esse. Rachael sai misteriosamente todas as noites. Ela não avisa onde vai e nem quando volta. Ela só espera eu me deitar, para ir embora.
    Nas primeiras vezes que isso aconteceu, tentei me convencer de que isso só era impressão minha, uma coisa para eu me agarrar e me livrar do tédio. Mas então isso foi acontecendo frequentemente e aqui estou eu, pronta para segui-la. É estranho, por que estou seguindo minha irmã. Isso significa não só uma invasão de privacidade como uma falta de confiança em Rachael. Mas não importa. Eu nunca me importei com isso.
   Rachael sai às 23:30 da noite, como esperado. Ela parece mais tensa do que nos outros dias, como se estivesse esperando que eu a seguisse. Eu pego o meu carro, e dirijo cautelosamente, tomando cuidado para não ser vista. Eu tenho um pressentimento ruim, que cresce a cada metro percorrido. Não demora muito para que o carro de Rachael pare, em frente a uma bonita casa de luzes acessas. Eu espero que ela entre, antes de eu sair. Ponho os pés para fora do carro, meu coração batendo mais forte. Isso me lembra o dia em que meu chefe, Monteiro, morreu; o tiroteio. A dor do disparo de raspão no meu braço. As capsulas de bala no chão, a bagunça e Jack. É incrível como as lembranças estão tão vivas em minha memória depois de tanto tempo. Me forço a avançar, repetindo para mim mesma que essa realidade não é igual a última.
    Eu ando até as portas de vidro dos fundos da casa. Agradeço pela presença do gramado. Ele neutraliza o barulho do meu salto. Eu não estou armada. Minha arma foi confiscada depois do "coma". As pessoas acham que sou incapaz de tocar em um revólver agora.
    Há várias pessoas na casa, pelo barulho. Eu me escondo e observo através do vidro, o que acontece lá dentro. Há 4 pessoas lá, incluindo Rachael. As cenas são repentinas e me confundem. Uma mulher idosa. Will. um menino de no máximo 5 anos. E Rachael. Todos sorridentes. Todos felizes. E então, quando o rosto de Rachael se ilumina ao ver a criança no colo de Will e alisa seu cabelo, um pensamento horrível toma conta da minha mente. Eu tento negar. Mas eu sei, no fundo eu não posso fingir, eu sei o que está acontecendo ali. O sorriso rasgado de Will e olhos brilhantes de Rachael. E para confirmar as minhas suspeitas, o garoto vira seu rosto e me encara. Então eu posso perceber que suas feições são familiares. É aí que eu tenho a certeza.
Esse garoto é filho da minha irmã.
E mais do que isso;
Esse garoto é filho de Will e Rachael.