Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

2.9.13

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 2

RACHAEL
Bato a porta do carro atrás de mim com força. O barulho é forte, mas eu não me importo. Eu estou chateada, não pelo fato de minha irmã ter saído do coma e sim por que Will tem o descaramento de visitá-la depois de todos esses anos. Ando a passos largos, irritada com os vestígios de areia que teimam em permanecer nos meus pés. Ele anda tranquilamente, como se nada estivesse acontecido e como se fosse apenas uma visita de rotina.

"Ei!"
  - Grito. Will olha para trás, gira os calcanhares e para. Ele está me olhando com aquela cara de "ah, essa não" por que acha que vou lhe dar uma bronca. Bom, pelo menos nisso ele está certo.
"O que veio fazer aqui?"
    - Exigo, mantenho minha voz controlada e baixa. Will olha para mim da cabeça aos pés, abre um sorriso cínico e diz:

"Primeira vez revendo a irmã em 10 anos e você me vem com short e sandálias."

"Oh, cale a boca!"
   - Exclamo, o que o faz rir.
"Quero saber, como você soube que ela acordou?"

"Eu sempre sei de tudo, querida."
   - Will responde, dando uma piscadela para mim.
"E afinal de contas, qual é o problema em eu visitar a Liza?"

 Olho para os lados receosa de que alguém nos veja. Então eu encaro os olhos castanhos questionadores de Will e digo:

"Você sabe muito bem o que é."

"Ah, então é isso?"
   - Will exclama como se eu estivesse fazendo drama com uma coisa pequena.
"Se não tem mais nenhuma objeção, com licença."

"Will!"
   - Grito indignada. Ele que já estava prestes a entrar no hospital, avança para a extremidade da calçada, encosta a boca no meu ouvido e sussurra:

"Ninguém precisa saber."



LIZA
"Síndrome do encarceramento."
   - O Doutor Walker diz. É a primeira vez que presto atenção em alguma coisa que ele fala. Não é grosseria ou má vontade, é que tenho tantas coisas para pensar agora que os seus diagnósticos médicos não fazem diferença. A maioria das coisas que todos eles dizem é que eu estou bem e o quanto eu tenho sorte. Sorte. Que ironia. Uma pessoa de sorte não pararia no tempo por 10 anos.
"Esse tipo de síndrome é raríssima. O traumatismo craniano te induziu a uma espécie de "sono". Todos pensaram que você estava em coma, mas você sempre esteve aqui. Só não conseguia se comunicar e mexer seu corpo."

Eu já vi várias pessoas sofrerem traumatismo craniano, só que quando isso acontece comigo pela primeira vez, eu acabo dormindo por uma década. Sim, eu realmente sou uma mulher de muita sorte.

"Ouve algum estímulo externo que a fez acordar. Mas, de qualquer forma, a senhorita está aí e uma série de exames foram feitas para verificar a sua saúde."
  - O doutor continua. Ele está falando por sei lá quanto tempo. Eu observo os objetos do leito do hospital para depois encará-lo e perguntar:

"Quando eu vou poder ir embora?"
   - Ele parece um pouco desapontado ao me ouvir falar isso ao invés de fazer uma pergunta interessante sobre essa tal síndrome. Eu percebo então que talvez tenha sido um pouco rude e digo:
"Oh, me desculpe... é que eu gostaria de rever meus familiares."

O doutor abre um sorriso compreensivo para mim e diz:

"Brevemente. Já entramos em contato com sua irmã e ela já está vindo para cá."

 Então a porta se abre e uma mulher o chama. Ele se despede de mim e vai embora, ao que eu fico imensamente aliviada. Não quero médicos. Não quero explicações e nem diagnósticos. Eu sei que eu estou bem, eu só preciso saber o que aconteceu enquanto eu ficava imóvel nessa cama.
Mas a saída do doutor não significa que eu estou livre de visitas.
Pra falar a verdade, eu nunca estarei livre de visitas.
Na porta, encontro Will me encarando fixamente.

  O mais incrível de tudo é perceber que Will não mudou tanto assim nesses anos. Ele parece mais forte, tem alguns fios de cabelo branco e uma barba por fazer, mas ainda mantém aquele rosto de 10 anos atrás; meigo e inocente, mas quando você olha para o fundo dos seus olhos, pode enxergar a malícia ali. Eu não faço a mínima ideia do que o tempo fez com o meu rosto. Mas também isso não importa quando eu sussurro seu nome e ele atravessa a sala dando largos passos, para em seguida colar seus lábios nos meus.
Um turbilhão de lembranças tomam conta da minha cabeça, das mais simples às mais significativas. O som dos tiros, a cor do sangue, os pneus assobiando, deixando marcas no chão, o vento e gosto. O gosto de cravos é muito mais intenso do que as sensações lembradas anteriormente. Até por que está na sua boca, e na minha boca agora o sabor dos cravos que Will costuma mastigar quase compulsivamente.

Há o cheiro de perfume masculino, a sua barba roçando na minha pele e ele quase deitando-se na minha cama de hospital.
Mas isso tudo acaba, quando alguém pigarreia.