Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

4.7.13

[CONTO] Fúria - Capítulo 6

Ouço um chacoalhar de metais atrás de mim.
Eu estou num container mantendo Jack preso. Eu dou graças por não ser claustrofóbica, por que o lugar é repugnante. Ele fede a álcool e carne podre. Mas é suficientemente grande para as minhas necessidades. Pego um maço de cigarro e me sento numa velha cadeira de madeira bem de frente para Jack. Ele se debate bastante, mas eu não me abalo. Eu tratei de prendê-lo bem. Suas mãos estão presas a um especie de moedor caseiro. Duas placas de ferro com elevações pontiagudas que lembram dentes
. O moedor vai apertar e machucar bastante suas mãos toda vez que eu puxar sua corrente. Além disso, seus pulsos e tornozelos estão presos a fortes algemas de ferro. Estamos há quilômetros da cidade, então não há escapatória. Puxo um cigarro e acendo, puxando a fumaça e fazendo questão de soltar bem em seu rosto. Fiquei sabendo que ele não gosta de cigarros. Jack me olha irritado com toda aquela fumaça nele.

"Que bom que acordou, Jack. Já estava começando a ficar preocupada achando que todo aquele sangue em sua perna tivesse afetado os seus sentidos."
    - Digo com doçura. Ele semicerra os olhos para o meu cinismo. Antes que eu o pegasse, Jack tratou de amarrar um pedaço de pano na perna. Ele ainda está lá, apesar de encharcado de sangue. Não vai demorar muito tempo para que a ferida infeccione. Mas eu não ligo, vai passar dias, semanas, até que a infecção viaje por sua corrente sanguínea e chegue ao seu coração. Até lá, eu já vou ter arrancado as informações que preciso dele.
"Tratei de procurar um lugar bem aconchegante pra você. Tem sorte, Jack. Eu o deixei vivo e tive a compaixão de providenciar um banquinho para você..."

"Sua..."
   - Ele me interrompe. Aperto a parte acesa do cigarro em seu rosto. Jack estremece e balança a cabeça, mas a faísca já queimou sua pele. É um buraquinho bem pequeno. Não é uma tortura, mas é o suficiente para deixá-lo mais irritado ainda. Eu sibilo:

"Primeira lição: quando eu falar, você não interrompe."

"Vadia!"
   - Ele rosna. Eu puxo a corda. O moedor aperta sua mão e ele grita. Eu pressiono a corrente tempo suficiente para que pingos de sangue comecem a cair na placa de ferro. Eu solto. Jack mantém os olhos apertados com a dor. Eu retorno com a voz doce:

"Esse não é um termo muito gentil para falar com uma dama."

"Dama."
  - Ele cospe.
"Você não passa de uma vagabunda maldita!"

   Aperto a corda de novo. Ele grita e choraminga. Eu demoro a soltar a corrente. Ele ofega, mas não diz mais nada. Eu falo calmamente:

"Eu fico pensando quem deve ter arranjado aqueles capangas pobremente armados pra você. Não foi muito difícil matá-los. Mas eu tenho certeza que seu chefe deve ter capangas melhores não é?"
    - Ele não responde. Eu continuo:
"Não seja burro, Jack. Seu chefe não está aqui para salvá-lo. Somos só nós dois. E se caso você for bonzinho, talvez eu seja mais piedosa com você."

"Eu não vou te falar nada!"
    - Ele diz. Eu puxo a corda de novo. Jack solta um grito agudo e se debate. O moedor estraçalha sua mão enquanto ele grita:
"Eu não posso, eu não posso!"

"Eu vou repetir aquela pergunta que te fiz."
   - Digo, soltando a corda. Me agacho para perto dele e sibilo, a centímetros de distância de seu rosto:
"Pra quem você trabalha?"

Ele me cospe.
Eu puxo uma faca da bainha e faço um corte profundo em seu rosto.
Sangue fresco escorre. Ele grita de novo.
Eu repito a pergunta e ele não responde.
Eu caminho e fico atrás dele. Então puxo sua cadeira um pouco para trás e enfio a faca em seu ferimento. Ele grita bastante. Eu fico cravando minha faca até formar uma cavidade. Eu mexo a ferida como se mexe num brinquedo.

"Tudo bem, eu conto, eu conto!"
   - Eu paro. Ele ofega e diz rapidamente.
"Eu trabalho para um grande mafioso há anos. Foi ele que mandou matar sua família. Eu não conhecia teus pais, ele só me mandou matá-los por dinheiro em troca. Foi só o dinheiro! Eu não tinha nada contra sua família!"

   O que ele diz me enfurece. Ele matou meus pais como se fosse só um item a menos em sua lista de afazeres. Esse tipo de gente não para pra pensar que ali existe uma família. Eu cravo a faca em sua perna de novo, dessa vez com mais força do que da ultima. Ele grita.

"Eu quero nomes!"
   - Vocifero.
"Tudo o que você sabe sobre esse teu chefe!"

"Thomas!"
   - Ele grita.
"Eu não sei seu sobrenome. Eu só sei que ele se chama Thomas por que eu vi um cara, um amigo dele, falar! É a unica coisa que eu sei! Por favor, me deixe ir! Eu não sei de mais nada, juro!"

"Onde ele mora?"
   - Eu pergunto, ainda com a faca em sua perna. Lágrimas escorrem dos olhos de Jack e ele continua gritando e se debatendo, mas o moedor o prende.

"Ele não tem endereço fixo, uma hora ele está aqui, depois ele vai embora! Eu o encontrei no Wall Street, nós negociamos tudo lá, depois eu nunca mais o vi!"

 Eu retiro a faca.
 Ele está falando a verdade.
 Fico frustrada com a descoberta.
 Jack não passa de um capanga, pé-de-chinelo dele. Eu não vou conseguir informações uteis com ele, mas eu faço uma ultima pergunta:

"Ele foi se encontrar com você pessoalmente ou mandou alguém?"

"Ele mandou um cara. Ele é muito perigoso pra se encontrar assim. O nome do cara era John Martin. É a unica coisa que sei."

    Eu o olho pela ultima vez. Seu rosto é uma mistura de sangue, suor e lágrimas. Uma mecha de seu cabelo gruda em sua testa e ele está ofegante. Eu me levanto e caminho para o fim do container. Ele então em diz:

"Eu não quis matar tua família. Eu sinto muito. Me deixe ir, por favor. Acredite, não é nada pessoal. Eu precisava de dinheiro."
    - Ele fala com a voz suave. Seu tom de voz é tão estranho quando ele fala mansamente. Mas eu não vou cair nessa. Eu me viro de frente para ele, minha arma apontada para sua cabeça. Ele fecha os olhos, esperando o tiro. Eu digo:

"Isso não basta."

  Então, meu dedo aperta o gatilho.

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