Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

21.7.13

[CONTO] Fúria - Capítulo 11

Aquilo é apenas um toque.
Will e eu sabemos o que significa.
Toda vez que alguém do escritório nos dá um toque no celular de uma vez, significa que temos que ir ao escritório imediatamente. É um chamado. Como o bipe que os médicos usam.
  Nós nos levantamos subitamente e Will abre a porta do carro para mim. Dessa vez ele que dirige. Eu encosto a cabeça no banco do carro e observo a janela. Manhattan é repleta de arranha céus e bastante movimentada. Nós não pegamos trânsito, então estamos no escritório que já foi do Monteiro em 20 minutos. Eu e ele não trocamos palavras. Fico feliz por ter algo mais importante para pensar do que no beijo que dei em Will. Nós entramos no escritório e Lauren dá um sorriso simpático ao nos ver. Ela é assim. Sempre com um sorriso no rosto.


"Boas notícias."
   - Lauren assim que nos aproximamos. Nós dois não dizemos nada e ela continua:
"Morgana Hansson acabou de chegar em Manhattan e está aqui querendo conhecer vocês."

Lauren nos leva até a sala que antes era do Monteiro. Sentada em sua poltrona, há uma mulher de meia idade. Ela é esguia e tem os movimentos firmes, mas as rugas no canto de seus olhos denuncia sua idade. Morgana tem a pele tão branca que parece rosa bebê. O cabelo bem curto, num loiro quase branco, destaca as formas bem assimétricas de seu rosto. Ela é bem magra, tem um rosto fino e olhos verdes. Morgana tem uma frieza elegante, seu jeito me diz que ela está acostumada com a liderança. Quando nós entramos na sala que agora é sua, ela se levanta e vem nos cumprimentar, mas sua expressão é a mesma. Não vejo nenhuma emoção, ela continua com a mesma postura serena e fria. Morgana nos estende a mão sem sorrir. Suas mãos são finas e os dedos longos. Nós damos um aperto rápido e ela faz um movimento para que nos sentarmos. Então ela me encara por uns segundos antes de dizer:

"Você é Liza Vaccari, se não me engano."

"Sim."
   - Digo. Ela esboça um sorriso. Apesar de ter sorrido pela primeira vez, não vejo nenhuma simpatia nele.

"Fiquei sabendo boas coisas a seu respeito. Suponho que seja de seu conhecimento a minha amizade com Monteiro. Você parece ser uma boa agente."

   Fico um pouco surpresa com o comentário. Eu não sabia que ela era amiga do Monteiro. Então, eu só digo:

"Obrigada."

"Não me agradeça."
   - Morgana diz.
"Monteiro gostava muito de você."

    Eu me calo. Me sinto desconfortável perto de Morgana Hansson. Talvez seja por que ela está me examinando, me lendo como uma máquina. O telefone toca. Morgana diz poucas coisas e desliga logo. Ela então vira-se para nós e diz:

"Eu gostaria muito de conversar melhor com vocês, mas sinto que agora não é possível. Vocês tem um chamado. Há uma ocorrência no Harlem. Vaccari, o caso é seu."

     O Harlem é bem diferente das areas centrais de Manhattan. Não há tantos arranha céus e o bairro é residencial. Harlem está melhor do que era há alguns anos. Não demora muito para que eu saiba onde se encontra o lugar da ocorrência. Já está cheio de policiais e há a perícia. Eu sei bem o que fazer. Devo agir rápido. Mostro o meu distintivo e eles me deixam entrar. Passo por debaixo da linha que interdita o lugar e entro na casa. É uma casa modesta, com alguns cômodos. Entro na cozinha e vejo alguns peritos tirando fotos, colhendo digitais e outras coisas de um corpo no chão. É uma mulher. Ela está com as roupas rasgadas e partes íntimas a mostra, o que me faz pensar que ela sofreu estupro. Ela é negra, e parece ter no máximo 20 anos. Os peritos me dão algumas informações da moça. Eu ainda não entendo por que Morgana me mandou aqui. Eu não trabalho para a perícia. Eu só me infiltro em lugares perigosos e pego mafiosos. É quando eu observo a porta da cozinha. A fechadura está quebrada com uma perfuração e resíduos de pólvora que indica que o assassino atirou nela para entrar. Ele provavelmente saiu por aqui também. Eu pergunto aos peritos há que horas a garota está morta e eles me dizem: 20 minutos.
   Saio pela porta e percebo que ela dá para um vasto campo, que mais a frente é uma quadra de basquete abandonada. Saco o revólver e avanço. Algo me diz que ele não foi muito longe. Eu estou aqui para caça-lo. E é isso que eu vou fazer.
   Entro na quadra. Está abandonada faz alguns anos. A grama cresce nos arredores do concreto e há áreas cheias de musgo. A cesta está enferrujada e tudo está bem sujo. Ao lado da quadra há um galpão. Eu não ligo muito para ele, até ver um vulto lá dentro. Eu corro para o galpão e entro, com a arma em punho. Está com fileiras e mais fileiras de latões e barris cheios de sucata. Eu caminho cuidadosamente, passando entre um barril e outro. Eu estou na quinta fileira quando ouço um estalo atrás de mim. Me viro e um homem alto, tem um fuzil carregado, apontado para mim. Eu deveria ter pedido reforço.
   Ele dispara várias vezes e eu me jogo no chão, atrás de um grande barril. As balas acabam perfurando algumas latas. O som é assustador. Como eu vou competir com um cara armado com um fuzil? Eu me arrasto e procuro uma posição estratégica. Eu disparo e ele se vira e dispara de volta. Mergulho para dentro do esconderijo. Ele me viu e está vindo atrás de mim. Ele mergulha para o lugar que eu estou e dispara várias vezes. Eu me jogo para o outro lado, mas não fui tão rápida. Uma das balas atinge minha coxa. Eu fico tonta com a dor por alguns instantes, mas depois recobro a atenção. Eu vou acabar morrendo se não chamar reforço. Eu estou contando com os barris atrás de mim para me proteger. Minha perna sangra freneticamente e eu começo a digitar uma mensagem no celular. Eu me levanto um pouco e disparo mais uma vez. Minha bala pega uma garrafa de vidro bem ao seu lado e os estilhaços de vidro perfuram seu braço esquerdo. Não o acertei, mas pelo menos ele está ferido. Envio a mensagem. Ele rosna de ódio. Eu atiro novamente e recebo como resposta mais uma rajada de balas. Eu tenho que estancar esse sangue, mas não tenho tempo. Eu começo a engatinhar para o outro lado da fileira com dificuldade e então ele me pega.
   Ele puxa o meu cabelo e me arrasta até o fundo do galpão. Eu tento me defender, mas ele tomou minha arma e me deu um soco na mandíbula. Ele é um cara enorme, com uns 2 metros de altura que faz com que eu me sinta uma criança. Eu estou fraca, suja, ferida e desarmada. Assim como no dia que eu fugi do ataque em que os meus pais morreram. Eu estou encurralada na parede. Ele me levanta pela roupa e diz:

"Até que você não é nada mau, hein, mocinha."
   - O homem asqueroso começa a deslizar a mão pelo lado direito do meu corpo. Eu tenho vontade de vomitar. Seu hálito fede a álcool e tabaco. Eu me debato novamente e ele puxa o meu cabelo. Ele abaixa a cabeça para beijar meu pescoço e eu dou uma cotovelada no lado esquerdo da sua cabeça. Ele afrouxa o aperto e eu corro. Não vou muito longe com uma perna sangrando. Ele me puxa pelo pé e me encara, cheio de ódio. Eu estou no chão e sua arma mira minha cabeça. Fecho os olhos, imaginando o tiro. O tiro vem, mas não me atinge.
   O galpão está cheio de policiais. O homem cai em cima de mim e o impacto faz doer minhas costelas. Ele está inconsciente, talvez até morto. Um policial tira ele de cima de mim e eu percebo que minha blusa branca tem uma mancha enorme de sangue. O tiro foi a queima roupa e esse sangue é dele.
  Os policiais fazem os primeiros socorros na minha perna. Uma mulher da perícia tem um kit de primeiros socorros e faz um curativo rápido. Eles estão preocupados com a minha perda de sangue e insistem para que eu vá ao hospital, ao que eu recuso categoricamente. A unica coisa que eu quero é ir para casa. Se minha irmã souber que eu fui para um hospital, ela vai ficar aflita. Não quero enchê-la com mais preocupações. Depois que o curativo é feito, eu agradeço aos policiais e peritos, pego o carro e vou para casa.

     Rachael se assusta ao me ver mancando e com uma mancha de sangue na blusa. Ela me enche com uma série de perguntas e me manda para um banho quente. Minha mandíbula dói e pulsa, mas eu sei que não fraturei nada. Depois do banho, Rachael insiste para que vá no médico no dia seguinte e eu acabo cedendo. Rachael se acalma um pouco mais e eu me deito no sofá para ver TV. Do outro lado, Rachael me encara com a testa franzida por horas. Eu digo a ela, com um sorriso divertido:

"Eu não vou morrer, Rachael."
   - Pelo menos, não por isso - acrescento mentalmente. Ela parece embaraçada com as palavras e me diz:

"Não é isso."
   - Me sento e a olho confusa. Ela respira fundo e continua:
"Eu sei, sobre o Jack Stevens."

   Suas palavras me pegam de surpresa. Eu jamais pensei que Rachael fosse pronunciar o nome dele. Eu tento me levantar subitamente, mas eu me esqueço que tenho uma perna baleada e gemo de dor. Rachael continua lá, me olhando com a testa franzida. Eu olho para ela e digo, estupefata:

"Como?"

"Você o matou não foi?"
    - Ela me responde com outra pergunta que me deixa mais surpresa ainda. Eu fico muda. Eu só consigo encará-la enquanto ela diz:
"Eu estava desconfiada em relação as suas atitudes. Há alguns dias você estava agindo de um jeito estranho. Então você sai de madrugada sem motivo aparente. Sim, eu a segui. E eu sei o que você fez. Eu sabia o tempo inteiro. Eu só fiquei esperando o momento que você iria cair na real e vir me contar. Porém, esse dia não chegou. O que me leva a pergunta: Como você é capaz de ir dormir com a consciência tranquila depois de ter matado uma pessoa?"

  Eu fecho os olhos, digerindo as palavras. Como eu não percebi que Rachael tinha descoberto tudo? E pior, que tipo de pessoa ela pensa que eu sou? A fúria toma conta de mim até eu perceber que ela está certa em pensar que eu sou um monstro. Eu matei três pessoas em menos de um ano. Eu provoquei a morte de várias outras. Eu torturei brutalmente dois homens só para conseguir informações. Ela tem o direito de pensar isso de mim.

"Desculpe."
  - É a unica coisa que eu consigo dizer.

"Você matou uma pessoa."
   - Ela me diz severamente.
"Não há desculpas no mundo que vá mudar isso."

"Ele matou os nossos pais."
   - Eu digo, rancorosa.
"Acho que você deveria levar isso em conta."

   Rachael atravessa a sala e se agacha na minha frente. Eu a encaro. Ela tem o olhar cansado. Rachael tem um fardo nas costas. Então eu percebo que não é somente eu que tenho que lidar com a dor. Ela também perdeu os pais. Rachael lida com isso de um jeito tão nobre que faz com que parte de mim se senta um lixo. Um lixo por estar fazendo minha irmã passar por isso. Eu tinha que protegê-la. É o meu dever protegê-la. Eu a esqueci completamente por causa da minha vingança. Mas agora, eu não posso parar.

"Eu sei que você está sofrendo. Eu entendo que seja difícil para você. É difícil para mim também. Eu não vou condená-la, por que nós temos que ficar juntas agora. Nós temos que ajudar uma a outra. Mas, Liza, isso não vai levar a nada. Isso não vai te fazer mais nobre. Isso não vai cessar a dor. Essa vingança, só vai fazer com que você se iguale a eles, entende?"
   - Rachael me diz. Sua voz, que antes era severa, agora é terna. Realmente, ela seria uma ótima psicóloga. Eu estou tão envergonhada de tê-la abandonado que eu não consigo dizer mais nada. Ela olha para mim, esperando que eu diga algo. Eu quero chorar, mas não posso. Eu sinto que se eu começar a chorar, vou me estilhaçar em mil pedacinhos. Rachael recebe meu silêncio e se levanta. Mas antes, ela me diz:

"Você não é uma assassina, Liza. Não aja como uma."

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