Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

29.6.13

[CONTO] Fúria - Capítulo 3

   Will faz uma carranca com o meu pedido. Ele tenta objetar, mas desiste e me deixa ir. Eu entro na sala do interrogatório e posso observar melhor o rosto de Jack. Ele é um homem jovem, mas o esforço físico, as marcas e cicatrizes o envelheceram. Jack ainda está com a mesma roupa, só o seu terno foi levado. Ele tem a aparência cansada. Mas isso não neutraliza o olhar cruel que ele joga para as pessoas, especialmente para mim. Há dois policiais com armas em punho na porta da sala, mas isso não o intimida. Eu caminho e me sento do outro lado da mesa branca. Então eu o encaro. Ele me encara de volta. Ele me odeia, o que não é uma grande surpresa.



"Vamos combinar de não mentir um para o outro, ok? Assim as coisas ficam bem mais fáceis."
    - Eu digo suavemente.

"Eu não costumo facilitar as coisas para pessoas que me atiram facas."
    - Ele me responde seco. Eu olho para as fossas negras que são os seus olhos e só vejo uma coisa: Raiva.

"Bem, não é como se você nunca tivesse esfaqueado alguém, é?"
  - Respondo. Minha voz se mantém calma e firme. Como uma conversa casual.

"Eu nem deveria estar aqui. Eu não matei aquela moça."

"Acredito em você."
  - Sorrio. Tenho que me forçar a ser fria e objetiva. Meu trabalho é tirar o máximo de informações que eu puder. Eu não posso sair do controle. Ele que deve sair. Então eu pressiono:
"Mas essa não é a primeira vez que está sendo acusado de homicídio. Sabe Jack, eu estive estudando sua ficha. Você foi acusado de matar um homem há 4 anos atrás, foi condenado, mas fugiu da prisão. Então, estudando melhor o assassinato, descobri que a arma usada no crime foi justamente uma faca. O que, obviamente, não passa de uma simples coincidência."

"Eu não tenho que lhe dizer mais nada."
  - Ele me diz. Ele está tenso. Bom. Talvez se eu pressionar mais um pouco, ela acabe cedendo. Então digo:

"Certamente o seu antigo crime terá um peso em seu julgamento. De qualquer forma, você será condenado. Juízes não gostam de fujões. Então, por que esconder? Você não tem nada a perder não é mesmo? Talvez se você se mostrasse mais flexível, o juiz lhe dê uma segunda chance."

"Não vou cair no teu papinho."
  - Ele cospe pra mim.
"Não sou burro. Você está louca pra me ver soltar alguma coisa. Eu não vou dizer nada."

"Você por acaso tem algo a esconder?"
   - Eu pergunto.

"Você quer tirar algo de mim por que não tem nenhuma prova."

"Não. Ainda."
  - Digo. Então a mão direita de Jack se move e algo chama a minha atenção. É uma tatuagem pequena, no canto esquerdo de sua mão. Aparentemente insignificante, mas que tem uma enorme importância para mim. Ela me desenterra memórias vividas. Momentos execráveis. Esse caso não era pessoal. Agora é.

"Nós ainda iremos nos encontrar novamente, Jack."

     Então faço um sinal e os policiais o levam.

    Eu estou numa cafeteria com Rachael. Nós não tomamos o café da manhã em casa, só comemos um lanche aqui e seguimos o nosso dia. Rachael vai para escola. Eu vou para o escritório do Monteiro. Ainda é muito cedo e o dia está frio. Rachael tem um casaco que é maior do que o seu corpo e eu tenho uma jaqueta. E nós temos cachecóis pretos. O movimento é calmo na cafeteria. Eu observo Rachael e penso quanto tempo passou desde que salvei aquele bebê de ser morto. Eu gosto de Rachael. Ela não é de falar muito. Apenas o necessário. Pessoas que falam demais me irritam. E Rachael sabe dar bons conselhos.

"Você está nervosa. Parece que está tentando tomar uma decisão importante."
  - Rachael diz. Sua voz é macia e clara. Como a voz de um psicanalista.

"Como sabe?"
  - Pergunto.

"Seus músculos faciais estão tensos."
   - Sim, ela está lendo a minha expressão. Ela quer fazer psicologia na faculdade e eu apoio plenamente sua escolha. Ela tem jeito para isso.

"Não é nada."
   - Digo. Ela com certeza não acredita em mim, mas prefere ficar quieta, o que eu agradeço profundamente. Rachael vai para o colégio e eu sigo para o trabalho. Tudo silencioso. Silêncio estimula sua mente. Chama pensamentos. E as vezes você só quer parar de pensar um pouco. O lado bom do meu trabalho é que ele me distrai. Me dá uma dose de adrenalina. Mas enquanto eu não chego, me ocupo nas próximas horas a pensar no meu próximo passo. Aquela tatuagem não saiu da minha cabeça. E então, quando eu finalmente paro o carro e entro no escritório do Monteiro, percebo que Rachael está realmente certa. Eu tenho uma decisão muito importante à tomar. E eu não sei o que fazer.

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